Palmense Marina Boaventura diz que 'a Arte é para a gente se ver e ver o mundo'

Artista se apresentou em diversos estados do Brasil com a performance Assédio Moral por meio do Programa Sesc Amazônia das Artes, edição 2014.

Artista Marina Boaventura
Descrição: Artista Marina Boaventura Crédito: Sesc Tocantins

Com a performance “Assédio Moral”, a artista plástica Marina Boaventura, percorreu as capitais de Manaus (AM), Porto Velho (RO), Cuiabá (MT), São Luís (MA), Teresina (PI), e por duas vezes, Belém (PA) por meio do Programa Sesc Amazônia das Artes, edição 2014.

 

Natural do município de Rio Paranaíba, em Minas Gerais, Marina Boaventura nasceu no dia 12 de março de 1962. Reside em Palmas desde o ano de 2002. Estudou Artes Plásticas na Universidade Federal de Uberlândia – UFU, (MG), especializando-se nessa área de ensino pela UFU e em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. A artista tem experiência na área de artes visuais, com destaque para a performance, “site specific”, instalação, objeto, “assemblage” e novas linguagens, com participações em exposições no Brasil e no exterior.

 

Em sua poética visual, Marina Boaventura trabalha suas memórias e vivências, produzindo um trabalho a partir de uma amálgama poética formada por elementos da estética “kitsch”, do sincretismo religioso, do sagrado e do profano. Segundo a artista, sua performance lhe possibilita transformar dor e sofrimento em atuação e produção, concebendo obras que representam as mazelas humanas e as diversas formas de violência simbólica ou física contra o ser humano.

 

Confira um bate-papo exclusivo com Marina Boaventura:

 

Quando começou a paixão pelas artes visuais?

Sempre me interessei por artes, desde criança. Lembro-me do meu primeiro desenho na escola, lembro-me de modelar potinhos em argila na beira do riacho... Cresci desenhando muito.

 

Quais os artistas que você tem como ídolos? Porquê?

Gosto de vários artistas. Gosto da criatividade de Picasso, das cores de Matisse, da genialidade de Da Vinci, da ousadia de Van Gogh. Admiro as mulheres Tarsila do Amaral, Lygia Clark, Louise Bourgois e Marina Abramovic.

 

Como você vê o cenário da Artes Visuais no Brasil?

Em crescimento. A valorização da arte brasileira cresce mundialmente, mas ainda é centrada no eixo Rio-São Paulo. É preciso mais abertura, lançar o olhar para os talentos, tendências e riquezas que estão escondidas nos confins deste país imenso.

 

E no mundo?

O mundo está fervilhando de ideias, obras, exposições, novas linguagens, novos talentos, tudo junto, ao mesmo tempo, meio caótico, como reflexo do mundo contemporâneo que vivemos.

 

E no Tocantins, qual a sua avaliação sobre essa cena?

Estamos muito verdes ainda. Precisamos de um grande investimento na área das artes visuais para descobrir talentos, tendências, oferecer capacitações aos artistas e possibilitar a exposição de seus trabalhos com qualidade. É indispensável a criação e ampliação de cursos de artes, com diversas oficinas e professores qualificados. Carecemos também de galerias e espaços adequados para mostras e exposições.

 

Qual é a ambição ou meta da artista Marina Boaventura?

Que o meu trabalho faça a diferença nas pessoas, que ele toque o outro. Que eu possa, através da arte, expressar a minha verdade, a minha essência que se completará no olhar do outro. Que a minha obra seja vista.

 

Qual obra de arte você admira e que gostaria de tê-la feito? Porquê?

Admiro a pintura do teto da Capela Sistina (situada no Palácio Apostólico, residência oficial do Papa, no Vaticano) porque é um projeto muito ousado, realizado por um grande mestre: Michelangelo Buonarroti. Sempre gostei de desenhar figura humana e no teto da Capela Sistina foram pintadas mais de trezentas figuras humanas, um verdadeiro estudo de anatomia.

 

Com Duchamp e Warhol as artes plásticas ficaram mais pobres ou mais ricas? Porquê?

A arte ficou muito mais rica depois de Duchamp e Warhol. Eles mudaram completamente a concepção da arte atual, mudaram o conceito, o significado da arte, subverteram os valores. Assim como Henri Matisse e Pablo Picasso, amigos e rivais que transformaram e enriqueceram a arte do início do Século XX, Marcel Duchamp e Andy Warhol trouxeram reflexões extremamente importantes para a arte contemporânea.

 

Quais dicas você deixaria para um artista plástico iniciante?

Quem está começando a trilhar o caminho das artes é necessário que estude e pesquise muito, desenhe bastante, pois o desenho é importante sempre. Invista na sua poética visual com cursos, leituras e escreva sobre seu trabalho, por mais difícil que seja, escrever sobre o seu trabalho ajuda a se ver e clarear possíveis caminhos.

 

Qual o objetivo da arte na sua visão?

A arte ajuda a gente a se ver e a ver o mundo que nos cerca.

 

O que muda ou já mudou na sua carreira com essa participação no Sesc Amazônia das Artes?

Participar do Programa Sesc Amazônia das Artes enriqueceu muito o meu trabalho. Fazer a performance pelas ruas das cidades que visitei e conversar com o público na exposição foi uma troca muito rica. Levar a linguagem da performance para lugares que ainda não convivem com esta forma de arte, provocou um estranhamento nas pessoas e despertou a curiosidade do público, o que é comum em algumas formas de arte contemporânea. O tema, assédio moral, provoca reflexões, questionamentos, surgem depoimentos, por se tratar de uma forma de violência simbólica, comum nas relações de trabalho e, que lentamente destrói o ser humano.

 

Visitando diversos estados, alguns, talvez, pela primeira vez, você mudou sua visão sobre as artes visuais no País? Se sim, porquê?

Claro que sim. Conheci outros artistas e trabalhei junto com cinegrafistas e fotógrafos de cada região. Fiquei encantada com a diversidade cultural da região amazônica e descobri como os artistas se organizam belamente, se fortalecendo, apesar das dificuldades fora do eixo Rio-São Paulo.  Existe uma riqueza artística a ser garimpada e lapidada, ainda não descoberta pela crítica e curadoria de arte brasileira.

 

O que um Programa como o Sesc Amazônia das Artes muda na vida de um artista?

Participar do Programa Sesc Amazônia das Artes enriquece o currículo do artista, divulga o seu trabalho de arte, amplia sua visão, possibilita troca de experiências, agrega valor à sua poética e ao próprio artista e proporciona um imenso prazer em conhecer cidades e culturas da região amazônica. Quero aproveitar para deixar uma mensagem para o Programa Sesc Amazônia das Artes: Parabéns! Este programa é lindo e importantíssimo para o Norte (e parte do Nordeste) do Brasil. Continuem investindo nele, acrescentem novas linguagens artísticas como foi o caso da performance e, se possível, aumentem o número de cidades. Este programa do Sesc tem características de um desbravador, porque mostra um pouco das riquezas culturais escondidas nos confins do Brasil.

 

Que lição você aprendeu de mais importante participando de um Programa como esse?

O que aprendi de mais importante com o Programa Sesc Amazônia das Artes foi: como a Arte é importante na vida das pessoas! Como a minha performance toca e faz diferença por onde eu passo! Isso agregou valor à minha poética, à minha pesquisa. Acredito mais no poder da arte para o ser humano. Acredito que todo ser humano precisa de arte, fazer arte, apreciar arte, conviver com arte.

 

Voltando ao tempo de escola, complete a frase: um artista plástico pode mudar o ...

Um artista plástico pode mudar o mundo... a arte alimenta a alma e faz a diferença, tem o poder de trans-formar, re-inventar, des-velar, um novo ser humano e um novo modo de ver o mundo.

 

Quais são os próximos projetos da artista Marina Boaventura? 

Minha arte é a expressão da minha luta interior para expressar meus éticos, não importa a linguagem poética, pode ser performance, desenho, instalação ou o que melhor me aprouver. Importa sim, continuar a minha trajetória com uma poética embebida do meu caldo histórico, com meus mistérios, meus valores, minhas dores e meus anseios. Quero mergulhar em águas mais profundas!

  

Deixe aqui sua mensagem final:

Deixe a arte entrar na sua vida! Faça arte! Aprecie arte! Deixe a arte contribuir para o desenvolvimento do seu senso crítico e da sua sensibilidade estética. Amplie seu universo através da arte!

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