O Ás do jogo

O passo ousado de Irajá, ao apoiar Osires Damaso, pode viabilizar uma divisão do eleitorado que garante o segundo turno no Tocantins...

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O gesto do senador Irajá – presidente do PSD - na tarde de ontem, segunda-feira, 4 de julho, em declarar o apoio à pré-candidatura do deputado federal Osires Damaso, é dessas jogadas da política que demonstram coragem e ousadia, raras de se ver.

 

O motivo: foi um ato de independência, sem combinar com a mãe, senadora Kátia Abreu(PP), como deve ficar claro nas próximas horas.

 

A motivação: O senador – que teve o empurrão da mãe para deixar a vida empresarial somente e disputar a eleição a deputado federal lá atrás – ganhou asas há muito tempo, e vinha incomodado nos bastidores, com o tratamento que os dois (mais ela do que ele, que não tem mandato a renovar este ano) vem recebendo de setores do governo. E por que não dizer, do próprio governador Wanderlei Barbosa.

 

Embora na coletiva de ontem tenha deixado claro que aprendeu com Ronaldo Caiado a separar “a pessoa física da pessoa jurídica”, e a divergir sem atacar a honra e a dignidade de ninguém, Irajá foi sarcástico ao comparar o governo de Barbosa metaforicamente a uma “ema” numa plantação de soja: “perdido e sem rumo”.

 

Despreparado. Este foi o adjetivo dado pelo senador ao governador que agora, deixa definitivamente de apoiar.

 

O problema: Irajá faz o gesto num momento em que a mãe, senadora Kátia Abreu tenta com todas as forças políticas que tem, permanecer na chapa do governo.

 

Definitivamente não dá mais. E se Kátia e Irajá juntos, não eram percebidos como uma força ao apoiar o governo, Irajá separado, vai mostrar à troupe de Barbosa, o estrago que é.

 

Ninguém acredita, conhecendo os Abreu e os Silvestre, que os dois marcharão separados nesta eleição.

 

Escutei outro dia esta história de um prefeito, que apoia a professora Dorinha ao Senado.

 

O senador Irajá fez a ele um gesto e destinou R$ 300 mil em emendas para seu município. Depois chamou o prefeito para conversar. No meio da conversa, pediu o apoio para a mãe, senadora Kátia.

 

O prefeito disse que não poderia, não tinha condições. Kátia (e Irajá) apoiaram o grupo contrário a ele na eleição municipal. Uma vez perdida a eleição, a senadora mandou retirar uma perfuratriz que tinha destinado ao município. Ele pediu para deixar. Ela bateu o pé e retirou. O prefeito guardou a mágoa, e colocou para fora nesta conversa.

 

Irajá argumentou, contra – argumentou que a emenda poderia ter sido cancelada, mas não adiantou. No final, pediu o apoio do prefeito para sua federal: professora Elisabete, do PSD, vice prefeita de Araguatins. 

 

Ninguém duvida que o senador quer a reeleição da mãe, mas sabiamente já percebeu que o que o governo faz, sangra na praça a candidatura de Kátia à reeleição.

 

Já houve um momento em que se acreditava que ela pudesse novamente firmar um acordo com Ronaldo Dimas, porém este momento passou.

 

Consultou todos, menos a presidente do partido

 

Na coletiva do senador, muito bem recebido pelo grupo, Irajá afirmou ter consultado todos os prefeitos do PSD, e “os 30 do PP”. À noite na casa da senadora o clima era de surpresa e por parte de alguns da família, indignação. O motivo: Irajá consultou todos, menos a mãe, presidente do partido, e o deputado federal da legenda.

 

Claro, o senador explicou a todos os motivos de deixar de apoiar Barbosa: “não acredito mais neste governo”. Experiente, acenou para onde vai, mas não condicionou o apoio de ninguém. “Acho que apoio, Damaso, tem que ser conquistado, e não imposto”.

 

Perguntado pela jornalista Sandra Miranda para onde vai a senadora Kátia Abreu, Irajá deu a resposta mais certa de todas: vai depender dela. E listou todas as candidaturas avulsas a senado: Ataídes de Oliveira, Wanderlei Luxemburgo, a própria professora Dorinha e por fim, a mãe. “A data de decidir isso é nos 45 do segundo tempo, ou seja, as convenções.

 

Desde ontem recebo perguntas no meu zap, sobre se Kátia vai ou não com Damaso.

 

Me lembrei daquele dezembro, Marcelo Miranda eleito e Butí convidando para assumir pastas no governo que assumiria em janeiro, membros do PSD de Irajá, que tinha pedido ao governador uma secretaria e quatro autarquias: o combo da agricultura, com Ruraltins, Itertins, Adapec... e viajado para os Estados Unidos, depois de recusar apenas a Agricultura.

 

O pepino ficou para a mãe descascar. Naquela manhã, vi uma Kátia de temperamento sanguíneo, sair de casa para tomar satisfações com Marcelo Miranda. E deu no que deu. Depois de apoiá-lo, nem à posse foi.

 

Anos depois, na negociação para apoiar Carlos Amastha, à prefeito de Palmas, novamente Irajá foi peça fundamental para ... não dar certo. À época ouvi um comentário: “ele é aquele dono da bola que quando contrariado, pega ela e sai do jogo”.

 

Ao longo destes anos, de longe, me habituei a ver Irajá como alguém inflexível e pouco amadurecido. 

 

Os fatos mudaram minha opinião: ele cresceu e muito politicamente. Desenvolveu métodos para administrar uma eleição como poucos. Conquistou a admiração dos prefeitos por cumprir compromissos. Em 2020, foi extremamente hábil em ajudar a construir o palanque de Tiago Andrino. Se não deu certo a eleição, é outra história, que escapa ao controle de quem apoia.

 

Ontem observando a coletiva e as ponderações de Irajá, ficou claro quem ele é: um estrategista que sabe bem seu peso e seu valor. Que aprendeu com a mãe a não levar desaforo pra casa.

 

E se tornou, com o gesto, o Ás do jogo.

 

Hoje Irajá amanheceu com um grupo político grato a ele, pelo apoio, que de fato, cacifa Damaso ainda mais para esta eleição.

 

Ele tem tempo, está no auge da carreira política. Precisa limpar a imagem, parar de se envolver em problemas com mulheres.

 

E quem sabe combinar melhor os movimentos com a mãe. Mas quem conhece sabe: são duas personalidades fortíssimas, ele mais frio, ela mais disruptiva.

 

Só não duvido mais que Kátia tem sucessor. E no momento, pode desagradar até dentro de casa, mas exibe uma visão de mais longo alcance. E coragem. Muita coragem!

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