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Adriano Castorino

Adriano Castorino

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A condenação do presidente Lula

- Atualizada em

O ódio é uma construção social. Há em curso no Brasil uma campanha de condenação do presidente Lula. O crime do presidente Lula é, sobretudo o fato de ele ser quem ele é. Essa campanha é urdida por um seguimento da sociedade que foi diretamente atingida pelas políticas sociais levadas a termo no governo de Lula. Nunca antes, na história desse país, um operário, nordestino, retirante poderia ter o poder constitucional de falar por uma nação inteira. Nesse caso, como presidente da república, ele tinha a prerrogativa de representar os mais pobres, os nordestinos, os retirantes, os negros, os indígenas. Mas também era o presidente do Brasil e como tal também representava os mais ricos, os mais escolarizados, os brancos, os descendentes de europeus, os moradores da casa grande.

 

Aqui nasce o problema. Essa parte da sociedade brasileira, que habita o topo da pirâmide, nunca suportou a ideia de ter um metalúrgico como presidente. Era como se eles ainda morassem na casa grande, com os mesmo privilégios, com as mesmas mordomias, mas o controle da casa grande, a gerência não mais fosse deles. O preconceito contra o presidente Lula é a origem do ódio de classe que vemos agora de maneira tão nítida. Por isso, mesmo que tiveram de suportar o governo, que a rigor tinha um mandato, esse grupo tem por objetivo destruir, desmontar, apagar o legado do governo do presidente Lula. A condenação midiática de Lula é um ensaio que demonstra esse anseio. A casa grande nutre, com seu ódio, o preconceito de classe.

 

Há interesses de longo prazo que pairam na pauta da grande mídia, que norteiam as convergências políticas. Um desses interesses é a possibilidade de um levante popular. Vou dar um exemplo simples: foi durante os governos do partido dos trabalhadores que algumas das agendas mais emancipatórias foram possíveis, tais como a efetivação da Lei Maria da Penha e regulação dos direitos trabalhistas das trabalhadoras/es domésticas/os. A classe social que habita o topo da pirâmide não pode aceitar com tranquilidade uma agenda que garanta reforma agrária, demarcação de terras indígenas, fomento para agricultura familiar, PROUNI, SISU, ENEM.

 

O maior perigo que Lula representa é o seu legado. Lula não é um homem perfeito, nem é santo. Houve erros imensos nos seus dois governos. Ainda assim é o legado desses governos que incomodam os moradores da casa grande. Incomoda porque é um legado que ao mesmo tempo é a história de nossa nação e uma pedagogia política. O fato de ser um legado com essa possibilidade pedagógica assusta porque é uma baliza para as políticas públicas. A emancipação das classes trabalhadoras ainda é um sonho, todavia, foi nos governos de Lula que esse tema tomou corpo. A classe trabalhadora pode sonhar, andar de avião, ter os filhos na universidade. Para a lógica de dominação, preconizada na casa grande, o direito a ter horizonte é privativo de quem mora no topo da pirâmide. Somente os donos da casa grande podem ter apartamentos tríplex.

 

Os pobres, ou seus descendentes, não podem compartilhar o elevador social. A campanha de condenação de Lula não pretende atingir Lula, unicamente. O alvo da condenação é a possibilidade de as classes trabalhadoras decidirem os rumos da vida política do Brasil. Em maior ou menor grau foi nos governos de Lula que o alvo das políticas públicas era os mais pobres. Por isso, sobretudo por isso, é tão importante para essa pequena parte da sociedade, os ocupantes do topo da pirâmide, se empenharem, munidos de todo o ódio de que possam levar em seus corações, na desconstrução do legado de Lula. Para estes donos da casa grande foi um erro terrível Lula ser presidente, mas será um erro ainda maior deixar Lula entrar para a história como melhor presidente do Brasil. Para evitar isso, estão construindo a condenação de Lula. O viés da condenação é o ódio. O ódio é disseminado como medida de desmonte do legado de Lula. O ódio de classe. O ódio é sinal de mágoa. A casa grande está magoada.

 

Adriano Castorino é professor da Universidade Federal do Tocantins, doutor em Ciências Sociais/Antropologia.

 

 

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