Palmas, Tocantins -
Adriano Castorino

Adriano Castorino

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Feliz a nação cujo Deus é o senhor

- Atualizada em
Presidente Jair Bolsonaro e Ministra da Família, Damares Alves Valter Campanato/Agência Brasil

A ideia de que Deus abençoa determinadas coisas é uma máxima entre as pessoas que se auto intitulam evangélicas e uma norma para cristãos, em geral. O Salmo 33, no verso 12 tem uma frase que é o título desse texto. Ao mesmo tempo que parece uma frase inofensiva, guarda uma série de controvérsias, entre as quais está a ideia de que temos de ter uma nação abençoada por Deus. 


O problema é que a noção de Deus, o ideal do que seja um Deus é antes de tudo uma perspectiva, e no caso do ocidente, é uma perspectiva judaico-cristã. Basta ver o tanto que é polissêmico esse conceito tendo em mente o conflito no oriente médio. Aliás, é precisamente aí que se mostra a complexidade da noção de Deus. 
Há uma fixação de correntes protestantes/evangélicas com Israel e isso tem relação com uma prática teológica chamada DISPENSACIONALISMO. Aqui está o cerne da questão que explica o apoio de miríades de protestantes/evangélicos (e também cristãos/cristãs em geral) a políticos/projetos de direita/extrema direita/conservadores. 


Para esse campo político é lucrativo navegar na redundância da pauta conservadora, por isso, aliam-se e retroalimenta-se. Essa fixação é tão grande que produz uma contradição imanente ao postulado cristão: a defesa da vida. Em nome dessa prática teológica, que é sobretudo escatológica, grupos de praticantes do cristianismo assumem bandeiras anti cristãs, como é o caso quando se aliam a projetos políticos como os de Donald Trump e/ou os de Jair Bolsonaro. Tanto um quanto o outro, nesse caso, não podem ser vistos como pessoas que tiveram suas vidas dedicadas a cumprir os preceitos morais tão caros a conservadores/cristãos. 


Nesses dois modelos de governo, só para dar um exemplo, há um forte apelo a projetos políticos que atentam contra a vida, como a liberação de armas de fogo. Mas para esse grupo religioso, isso é um tema menor, porque o que importa mesmo é salvar a nação de Israel. O fulcro dessa prática teológica é o seguinte: se a nação de Israel for reestabelecida, o Messias voltará à Terra e levará consigo os seus/as suas fiéis. 


Há também nesse grupo de praticantes cristãos/cristãs discursos e preletores/as fervorosos contra o que chamam de comunismo. Uma parte da ideia com a qual explicam a sua afinidade com políticos e projetos de direita/extrema direita é que como cristãos devem combater o comunismo. A ideia de comunidade, base etimológica do que vem a ser o conceito de comunismo, como teoria política, é explicada no livro de Atos, capítulo 2, na altura do verso 42. 


Naquele momento inaugural do que seria a semente da prática cristã, portanto, muito antes de Karl Marx, as pessoas compartilhavam tudo, viviam em comum, a noção de propriedade privada não estava no anseio daqueles fiéis, nem tampouco a posse de armas de fogo. Em outras palavras, o origem da prática cristã guarda aquilo que viria a ser chamado de sociedade comum, um socialismo em si. A base do cristianismo, seria, portanto, a defesa intransigente da vida. 


Quando vejo um grupo de padres defendendo o uso de armas de fogo, percebo que para além de abandonarem os pressupostos de uma vida em comum, de uma vida comum, parte significativa de praticantes do cristianismo aderem a projetos que frontalmente contestam os mais sólidos pilares daquilo que dizem praticar. 
O apoio de lideranças evangélicas/protestantes/católicas a grupos políticos que defendem a tortura e torturadores, que defendem abertamente o extermínio de grupos minoritários, que fazem apologia a crueldade contra mulheres, que gostam de armas é um sinal de que ou os ensinamentos escritos nos evangelhos eram inócuos ou estamos vivendo sob a face de hipócritas. 


Uma das promessas de campanha do governo federal é liberação da posse de armas. O que estranha é que esse governo tem apoio de numerosos grupos de praticantes cristãos e não há até agora nenhum posicionamento desses grupos, nem de suas lideranças, contra esse projeto. Há uma contradição evidente: como ser cristão/cristã, pregar a paz, defender a vida, e ao mesmo tempo estar num projeto político que é francamente favorável ao uso de armas, que em última análise a função da arma é aniquilar a vida.


Feliz a nação cujo Deus é o senhor, inclusive das armas. Assim, as pessoas de bem, quase todas brancas, homens, defendem a liberação de uso de armas. Agora temos um governo abençoado por Deus e protegido pelo gatilho das pessoas de bem. Deus acima de tudo e na dúvida, uma arma para garantir. É o começo da libertação do socialismo, da ideia de comunidade, da noção de vida comum, agora teremos uma nação segura e com nossa bandeira sempre vermelha de sangue. Como os tempos são outros, aqueles velhos textos que diziam Não Matarás é coisa do passado.

 

Adriano Castorino

professor

adrianocastorino@uft.edu.br