Palmas, Tocantins -

Em Debate

Ramiro Bavier

Ramiro Bavier

bavier@gmail.com


Em Debate
332 visualizações

Fora! O Exército chegou!

- Atualizada em
Reprodução

Posiciono o celular, dou uma quebrada no pescoço pra esquerda e pá! Selfie feita. Agora é só arrumar, pensei. Começava ali uma Odisseia. Só que sem o Ulisses. O Ulisses é o cara que eu espero receber pelo menos um like quando postar essa foto. Na verdade eu quero é dar pra ele. Sempre quis. Mas vamos pra foto. Comecei a mexer e a jogar uns filtros aqui, outros ali, havia manipulado a luz na pose, enfim, estava ficando melhorzinha. Mas...isso o Ulisses ainda não comeria, pensei de novo. Salvei as alterações e deixei pra melhorar a selfie mais tarde, quando estivesse sozinho no quarto.

 

Vou pra varanda da casa, me sento no canto, e me dano a rolar a tela do meu celular atrás do Ulisses. Certeza que tem coisa nova dele, ele nunca fica sem postar! E nada. Na rolagem da tela vejo dezenas de posts de um cara com cara de indígena, um senhor tipo sessenta, sessenta e cinco anos. A maioria desses posts era por conta de uma vakinha que estavam fazendo pra ele porque invadiram a sua casa, destruíram tudo e ele agora estava somente com a roupa do corpo, coitado. Fiquei tocado. Sinistro. Ele passou acho que uns 13 anos pra erguer a casa dele, diziam os posts. Acelerei a rolagem e nada do Ulisses. Fui pro quarto.

 

Tenho prova logo mais à noite. Tema: “América Latina versus Autoritarismo: o avanço da extrema-direita no mundo”. Fiz a prova em uns 15, 20 minutos, sem nem mesmo saber do que tratava aquilo. Corri pra casa. Não parava de pensar na foto que ainda tinha que arrumar. Coração acelerado e, claro, já imaginando seduzir o Ulisses. Entro. Como alguma bobagem na geladeira, tiro a roupa, os chatos lá de casa já calados e prontos pra dormir. Eu me tranco no quarto. Pego o celular. Abro a foto. Começo de novo.

 

Evo Morales acaba de renunciar. Bolívia não suporta crise pós-vitória de Evo nas urnas e Forças Nacionais decidem pacificar o País. México oferece asilo ao ex-presidente. Tentando seu quarto mandato, Morales não resiste a indícios de fraude eleitoral, perde força e polícia boliviana fecha o País. Golpe. Há mandado de prisão para Morales. América Latina sente na carne os efeitos da cegueira esquerdista e teme que o que houve com a Bolívia contamine países vizinhos. Acho é pouco, só falta agora foder o Brasil! Brasil está na mira da onda. Tudo pode acontecer e País começa a se preparar para o pior. Não há motivos para pânico. Direita assegura integridade da população e defesa da soberania nacional. Há informações de áudio vazado do Trump.

 

Quanto mais rolava a tela do meu celular, só via essas coisas. E nada do Ulisses. Ah! A foto. Comecei a achar que se tivesse quebrado o pescoço pra direita a luz teria me favorecido mais. Droga! Disse baixinho porque já era tarde e se eu falasse alto o piolho do meu irmão entraria no quarto e descobriria tudo, inclusive os algoritmos que me traziam todas aquelas informações sobre a esquerda e América Latina. Me chamaria de esquerdista ou petista derrotado, um desses dois. Na verdade eu nem sei o que é um e nem outro. Esses algoritmos me aprisionaram porque sigo o Ulisses e quem também ele segue nas redes, entende? Ulisses é bem inteligente, descolado, engajado... essas coisas. Volto pra foto e lembro de um app que inverte as posições. Viro e reviro. Inverto. E nada. Puta que pariu. Tem que ser essa foto!

 

Comecei a achar que minha roupa estava fora de contexto, o quadro do fundo sem expressão nenhuma, desses que minha mãe não pode ver em feira de bairro que já quer comprar. Também não percebi uma mamadeira da minha vizinha, largada no canto da sala. Se o Ulisses desse um zoom iria rir de mim. Me senti um ridículo. Comecei a pensar que jamais o Ulisses me comeria. Senti ódio da vizinha por ter esquecido aquilo aqui em casa. Poxa, logo naquela hora! E se eu apagasse aquele objeto asqueroso da foto? No colégio as meninas vivem excluindo o que não querem das fotos. Pronto. Achei o aplicativo e deu certo. Retirei. Na minha foto nem mamadeira de piroca! Imagina! Mas e o quadro do fundo? Gente, nem alguém sem a mínima noção de arte aceitaria um negócio daqueles na parede. Tirei o quadro da imagem também. Ficou estranho, vazio, mas...

 

Os filtros deixaram o meu rosto fan-tás-ti-co. Só que o cabelo, o cabelo eu não gostei. A pior das selagens não deixaria um cabelo daquele jeito. E mais: o Ulisses era largadão, de cachos compridos, exibia irreverência, naturalidade. Até de cachos molhados ele encantava. Mas o meu, o meu não. O meu estava horrível. Joguei uma sombra em toda a imagem. Deu uma disfarçada. Dormi. Amanhã, cedinho, eu termino de editar essa foto, disse antes de cair na cama.

 

Acordo com o barulho na cozinha e meu pai aos berros pra que o Exército ocupasse as ruas do País pra moralizá-lo. Minha mãe preparando os ovos mexidos e minha irmã mais velha e meu irmão piolho concordando com os berros do meu pai. Eu só pensava na foto e no Ulisses. Quando dei o primeiro gole de um suco sem graça que minha mãe fez, escutei um barulho estranho, gritos na rua, correria, pega! pega! Do nada, uma pedra quebra a janela de nossa cozinha e por pouco não acerta a cabeça de minha mãe. O que é isso? Baixa! Baixa! Dizia meu pai.

 

Tudo está nas mãos do Exército. Triste notícia para o País. Resistência. Pela Ordem Mundial, o Brasil volta a 1964 e inicia nova ditadura militar. O País está em alerta. Segundo fontes seguras, o Presidente e sua família estão protegidos, graças a Deus. A bolsa começa a oscilar. Estudantes ativistas são espancados em várias universidades. Há muita euforia e desinformação. O Congresso Nacional acaba de ser fechado. Já temos a informação de seis mortes em confrontos. Eu falei! Eu falei! Ainda berrava o meu pai com as mãos em agradecimento. E eu assustado no chão agarrado ao meu celular. Ainda faltava finalizar a edição! A foto! O Ulisses!

 

Num soco só a porta de nossa casa é arrombada. Uns quatro homens com umas roupas esquisitas e armas na mão mandam a gente sair dali porque a casa ia se tornar uma nova base. Nem deixaram pegar nossas coisas. Meu pai também passou, acho, uns 13 anos pra conseguir aquela casa, que já não era mais nossa. Eles ordenavam: fora! fora! Bando de esquerdopatas! Na hora olhei pro meu irmão, todo mijado de tanto medo. Meu pai parou de berrar e escondeu as mãos.

 

No empurra-empurra pra sair da casa, num sol de rachar, muita gente gritando e chorando. Nesse momento, quebro o pescoço pra trás e vejo o Ulisses, de longe. Ele gritava: fora! fora! A roupa dele também era esquisita e ele tinha arma nas mãos. O cabelo, deu pra notar, havia cortado. Lembrei-me do tema da prova, do Evo, do esconderijo do presidente e sua família. Joguei fora o celular, já estava tudo mutilado mesmo.


 

Notícias sobre:

bolívia evomorales exército

Outras Notícias