O sinal vai abrir. Num grupo de whatsapp, fantasmas e amores

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Há poucos dias fui incluído num grupo desses de whatsapp. Para minha surpresa, nomes conhecidos de minha infância e adolescência começaram a surgir. Eram os meus desejos, desafetos, afetos, segredos e pecados tomando forma outra vez. Formas desconcertantes, é certo, mas que de alguma maneira me remetiam a memórias que eu pensava nem mais existir. A verdade é que tempo não se resgata, vive-se. Quem não, fudeu-se E tudo começou, novamente, dali, das conversas que atropelavam os caracteres, da euforia para fazer-se presente, do instinto de pertencimento. Em épocas de isolamento, da total falta de condução de uma pandemia que já matou mais de 600 mil pessoas no país, e que também nos matou, foi um respiro.

 

Poderia ser um enredo de mais uma história daqueles que cresceram, estudaram juntos e, depois, a vida se encarregaria de encaminhar cada um às suas estradas e escolhas. E era. Com um diferencial: eram as nossas histórias, com as marcas de chatas, previsíveis, curiosas, alegres, enfadonhas... Mas, a cada post, uma lembrança reacendia a memória de cada um, já fragmentada pelos quase cinquenta anos. Senti saudades, confesso. A imagem era a de estarmos todos juntos numa roda de conversa, rindo até esperar o fim, que sempre vem, para depois irmos embora novamente. Mas era somente um grupo de whatsapp.

 

Nada de excepcional: a cola que o professor flagrou, o namoro sob a vigilância do pai, o “jeitinho” daquele que parecia um veadinho, a professora que assediou moralmente o aluno, a garrafa de vinho roubada em um dos encontros na casa de algum, os lanches na casa dos amigos enquanto estudavam, a falta de acesso para os mais vulneráveis financeira e socialmente, os assédios moral e sexual de homens e professores com alguns da turma, a expulsão da sala, a suspensão, os bolos batidos debaixo da mesa, os de memória afiada, os que conseguiram ser, os que não conseguiram, ainda; os gibis, os cordões vermelho e azul, a roda gigante, o clube da praça, a praça, os que já não estão entre nós. Um pedaço de cada um nas esquinas da vida, enfim.

 

Vivíamos sob um regime de ditadura militar (1964-1985) e isso não constava nos livros de Moral e Cívica, nem nos de Literatura, História, Geografia. Não sei se fomos poupados ou alienados do nosso tempo. Talvez tenhamos sido uma geração perdida, que apenas corria para pegar o primeiro lugar na fila da merenda, fuxicar dos outros nos corredores da escola, ou mesmo desejar que a diretora e o diretor enfartassem. Essa era a nossa doce tortura. Não sei se crescemos. Sei que precisamos uns dos outros. Tempos tão difíceis estes que um abraço já nos salva.

 

Esse recorte de história passa-se num reino mal encantado, num pedaço de terra tomado por usucapião. Mesmo de longe, em posts, defenderemos, em segredo, cada vivência, para que a demência que se aproxima não corroa o que a alma pariu. Utopia.

 

Vocês lembram quando a gente pulou o muro?


Lembro que mamãe não deixava ficar na praça até tarde.


Naquele tempo a gente era feliz. Hoje tá tudo mudado.


Morreu? Nossa! Sabia não.


Ela se casou com o filho daquela, mas depois separou.

 

Lembrando do Paulinho da Viola na música “Sinal Fechado” (1969/70) me ponho a dizer: o sinal vai abrir em 2022. Essa canção deveria dar nome ao grupo. Pode ter sido um prenúncio do que ocorreria àqueles do reino mal encantado. 

 

Agora vou ver quantas mensagens eu perdi durante esse tempo que escrevi.

 

Ainda estou no grupo. 

 

Ramiro Bavier
Jornalista

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