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Ramiro Bavier

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Pelo sinal da Santa Cruz. Agora sem mainha

- Atualizada em
Descrição: Imagem ilustrativa Freepik

Eu tinha dez anos de idade quando vivi a morte da Elis Regina. Faz as contas aí. Provavelmente vai dar noves fora zero. Foi no mesmo dia que minha avó partiu. Chorei muito, não sei se por Elis, se por mainha que me apertava a mão chorando pela mãe dela ou se por eu ter ganhado uma viagem de ônibus naquele dia. Foi mainha que me mostrou a morte.

 

Imagina a cena: uma casa, uma janela na vertical, uma criança agarrada a uma mão suada, chorando, e um carro de som que anunciava a morte. Da Elis. Era eu. Mainha. Vozinha estrebuchando. E a janela.

 

Eu choro há tempos. Choro mesmo. Na verdade eu queria matar todos os heróis, correr com Dona Hermínia para bem longe da Primavera Árabe. Para que heróis, não é mesmo? Se não entendeu até aqui leia “Redes de Indignação e Esperança – Movimentos sociais na era da internet” (Manuel Castells, Zahar, 2013). Eu só queria chorar. Dizer uma coisa bem bonita pro Paulo Gustavo, pra todas as famílias que a polícia continua matando... mas a mão suada de mainha não deixa. Eu quero voltar pra casa, e de ônibus. A essa altura eu já tinha matado vozinha, agarrado mainha e chegado em casa pra dormir na rede. Não consegui me matar.

 

Penso que você está vivo não por merecer. Está vivo porque você é ainda uma merda. Não está vivo pelas bênçãos de Deus. Deixem Deus fora disso. Ele é noves fora zero também. Você está vivo porque nem morrer merece. Morrer é para poucos. O carro de som passou, mainha continuava aflita e minha mão continuava suada. Suada porque ela não largou um só minuto. E eu só pensava na volta pra casa, de ônibus.

 

O dia das mães foi por esses dias. Impressionante como conseguimos matar todas elas, a romantizar seu papel, a dizer que acima de tudo e de todos o milagre é ser mãe, guerreira, lutadora, a que criou sozinha seus três filhos, a que varava madrugadas pra poder receber e comprar na mercearia da rua a comida de casa.  Mãe é isso. Elas que lutem!

 

Minha pele parece que tá caindo. É natural.

Meu cabelo tá mudando de cor. É natural.

Nunca mais comprei um batom. É natural.

Minha boceta tá seca faz tempo. Reza!

 

Depois que vozinha estrebuchou na cama e partiu, que minha mãe chorou, que minha mão não conseguia se libertar de tanto suor, eu já estava na parada do ônibus. Nem lembro se mainha ainda segurava minha mão. A poltrona era do lado da janela. Ar-condicionado não havia, ainda. O vento sujava e limpava meu rosto. Do meu lado, mainha. Parecia que ela estava engasgada. O que eu não gostava era sua mão, vez ou outra, arrumando meu cabelo e mandando ficar direito na cadeira.

 

Mainha viu Elis?

Que Elis, menino?

A cantora que morreu.

Deixa de dizer besteira!

Não sei se chorei mais por Elis ou por vozinha.

 

Eu sempre senti mainha. Das vezes que apanhei, lembro-me do peso da mão dela. Diferentemente da de pai, a mão dela era tosca, rude, pesada. Apertava muito meu polegar quando me ensinava o sinal da cruz e eu errava. Errava na hora do “livrai-nos Deus, nosso Senhor...” Ela mandava ir pra um lado e eu ia pra outro.

 

E aconteceu que eu cresci.

E aconteceu que eu lavei as mãos.

E aconteceu que nunca mais suei.

 

Mainha foi embora.

 

Agora imagina a cena: uma casa. Uma janela na vertical. Um homem chorando. Carro de som. E sem mainha.

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