Palmas, Tocantins -
Evandro Soares da Silva

Evandro Soares da Silva

419@teste.com

Experiência
3.954 visualizações

Qual o legado que fica por quem passa pelo Jalapão?

Antes de se dispor a conhecer o planeta, vá ao Jalapão. Lá você se sentirá em outro mundo...
- Atualizada em
Cachoeira do Formiga, Jalapão Arquivo pessoal

Eu, tocantinense de nascimento, coração e registro, demorei mais de trinta anos para conhecer o Jalapão. E, sendo redundante, a região comporta atrativos naturais belíssimos. Mas aqui neste texto, não pretendo apenas relatar a experiência turística maravilhosa que tive ao conhecer o lugar e sua gente, até porque, seria chover no molhado, pois observo por meio de relatos, que as impressões são comuns aos que por ali já passaram.

 

Antes de tratar das especificidades do tema que me habilito discutir, abro um parêntese, que adiante, me ajudará estabelecer um nexo entre minha fala e as minhas constatações. Nasci e me criei em Guaraí, cidade que fica há menos de 200 km da capital, Palmas, tive uma infância e adolescência voltadas a aproveitar as coisas essenciais da vida e olhando para trás percebo que fui feliz, mas, e o depois? Se tivesse deixado a vida seguir passagem e eu ficasse parado no tempo, como estaria hoje? Me ponho a refletir. Da minha família recebi afeto, educação, princípios que me acompanharão pelo resto da vida. Saí de Guaraí para Palmas para estudar, pois, apesar de estar feliz eu sabia que, futuramente, precisaria de algo mais para garantir uma vida mais tranqüila à medida que o tempo passasse. E aqui, não me limito ao aspecto material. Sossego pressupõe ter acesso à saúde, no tão extraviado SUS, por exemplo, isso tem se tornado a cada dia mais complicado. Dinheiro ajuda com isso também. Fecho parêntese.

 

Saímos para o Jalapão num pequeno grupo de seis amigos, em dois carros, pois, a ideia era um socorrer o outro, caso houvesse algum contratempo. Uma viagem quilometricamente pequena em extensão, mas que se torna uma infinidade, dada às condições da estrada. Nos primeiros quilômetros, percebi que deveria manter uma distância bem considerável do veículo da frente (onde estavam os amigos que já conheciam o caminho), pois, a poeira escondia armadilhas perigosas, como: pontes sem sinalização e sem barreira de contenção. Dali em diante, impossível não pensar em tudo que ouvimos sobre o alto custo de “pontes desnecessárias” (ou inexistentes) ou do quanto se gasta para manter a malha viária tocantinense em condições “trafegáveis” (ou não), sem entrar no mérito das investigações em andamento.

 

Já exausto, chegamos a São Félix. Conhecer o fervedouro Bela Vista e tê-lo por inteiro só para o meu restrito grupo, foi compensador. Encantado, não esperei o dia amanhecer para me certificar se no fervedouro, realmente, a gravidade é desafiada. Armei minha barraca e, contrariando, minha previsão de ter uma noite mal dormida (na verdade, algumas horas), peguei no sono.

 

A insatisfação só veio de novo quando tivemos que voltar à estrada.  E aqui, deixo claro, que entendo que a rota difícil é, em parte, o que atrai grande parte dos aventureiros. Os “Jipeiros” adoram testar seus motores, seus pneus e suas habilidades. Pense comigo, para quem vai se aventurar é interessante, pois, logo voltará à cidade onde terá acesso aos serviços básicos e essenciais. Mas por outro lado, não exclua da análise quem vive ali desde sempre. E foi nisso que pensei e comentei durante a viagem (sim, é uma viagem!) entre o fervedouro e a cachoeira da formiga. Na cachoeira, me encantei outra vez e, como se sabe, encantamento nos anestesia por algum tempo. Nunca vi em toda minha vida nada parecido com aquela água cristalina, limpa, pura e na temperatura certa. No final do dia, hora de pegar a estrada outra vez e me indignar de novo. Aquela região não precisa de muita interferência humana para se tornar deserto e, olhando pela janela do carro, vi resquícios de queimadas. Como ignorar? Impossível. Chegamos ao outro fervedouro, sorrimos, desafiamos a gravidade novamente e outra vez... pegamos a estrada. Próxima parada: comunidade Mumbuca.

 

 A ponte que dá acesso ao povoado foi queimada, ficou totalmente destruída e só não isola o local por completo, pelo fato de, enquanto o rio não estiver cheio, dá para passar, mas em carro alto e com tração, impossível para uma van ou ônibus fazer o trajeto. E como fica a situação das crianças e adolescentes que precisam ir à escola? E se alguém adoecer e precisar ir ao médico?

 

Mumbuca é um lugar que me fez voltar no tempo. As pessoas ali são quase todas parentes, muitas delas descentes de Dona Miúda. Pessoas simples, inteligentes, acolhedoras e, aparentemente, felizes. Contudo, a felicidade não suplanta o descontentamento em alguns aspectos. Falta saneamento básico, iluminação pública e os muitos outros serviços públicos. Assim, estão distantes das oportunidades, uma vez, que não têm acesso às mínimas condições de vida, admito: isso incomoda minha paz de espírito. Entendi o porquê de o IDH da região ser um dos mais baixos. Realmente, dá vontade de fazer mais por aquela gente, mas por enquanto, vou usar esse espaço para sensibilizar quem de Direito tem a obrigação de fazer e não faz, quem sabe...

 

Como fazê-las entender que todos os dias elas são privadas de seus Direitos e que muitos princípios substanciais que norteiam o ordenamento jurídico são violados? Nas rodas de conversas informais, percebi que, embora, estejam privados de benesses e investimentos necessários, a grande maioria é inconformada com a situação de abandono. Muitos, assim como fiz lá atrás, já saíram para estudar em outras localidades. E, da mesma forma que segui minha trajetória, muitos querem retornar para fazer mais pelo seu povo, espero que consigam. E que até lá, o poder público, paute as suas ações tendo por base quem dali não pretende sair. Que inclua o turista, mas não exclua quem tem raízes. 

 

Simplicidade e precariedade são conceitos distintos. Na prática, então, se distanciam ainda mais. A diferença principal consiste no simples fato de que podemos optar voluntariamente por vivermos de forma simples. Já a precariedade, ao contrário, é vivida de forma imperativa e compulsória.

 

Os turistas e aventureiros têm a opção de escolher o Jalapão e o contato com a simplicidade da natureza, quase intocável, como antídoto para o stress (e, claro, não há nada de errado se a pessoa pode pagar e optar por ir de avião, como vi enquanto estava lá). Mas o contraponto que faço é: nunca entenderão as dificuldades de quem vive na precariedade (que não tiveram liberdade de escolha) e, talvez, por essa razão, sairão de lá apenas com a “alma lavada”, pois, incomodar-se com a situação do outro implica em outros fatores. Requer muito mais que simplesmente ver; exige empirismo, pragmatismo para colocar-se no lugar do outro...em suma: vivência!!

 

Nesta lógica, reitero: antes de se dispor a conhecer o planeta, vá ao Jalapão. Lá, certamente, você se sentirá em outro mundo.

 

Evandro Soares da Silva é Defensor Público Estadual em Guaraí e Professor Universitário.