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Pandemia
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Bons exemplos que o Brasil deixou de seguir na pandemia

Com resposta lenta, Brasil se tornou epicentro da pandemia em dois momentos, mas poderia ter aprendido com a Austrália para evitar o primeiro e com os Estados Unidos para evitar o segundo
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Reuters/Roosevelt Cassio/Direitos Reservados

“O medo e angústia que nos cercaram nos dias iniciais da pandemia, somados à tristeza e o luto com a perda de amigos e familiares, me fazem crer que só teremos dias melhores quando a população estiver vacinada”, é essa a sensação de Bruna Cunha, 25, quando pensa nos sentimentos causados pela pandemia da Covid-19. Em um mundo impactado pela doença são sensações comuns, compartilhadas pela grande maioria.

 

As notícias sobre a doença que se alastrava por todo o mundo deram cerca de um mês para o Brasil se preparar para a chegada da pandemia (ou o primeiro pico, ou ainda a segunda onda). Infelizmente, não foi possível aproveitar a vantagem devido à condução do Governo Federal frente à Covid, desafiado ainda pela saída de três ministros da Saúde que conduziam o enfrentamento.

 

A pandemia trouxe ao Brasil duras provações e lições. Com declarações polêmicas do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), a pandemia foi minimizada e questionada, bem como a mortalidade da doença, seu tratamento e ainda a imunização. Com atraso de um ano para começar a atender às orientações sanitárias de prevenção à transmissão do coronavírus, Bolsonaro em muitas ocasiões desdenhou do uso de máscara e provocou arbitrariamente aglomerações.

 

O Governo Federal negou, ainda em agosto de 2020, proposta da farmacêutica Pfizer para aquisição de uma das primeiras vacinas desenvolvidas contra a Covid que seriam entregues a partir de dezembro do ano passado. A falta de ações mais incisivas no combate à pandemia somada à lenta tomada de decisões transformou o Brasil no epicentro global da pandemia em maio de 2020 e novamente em março deste ano.

 

Modelo de enfrentamento

 

“Quando o primeiro caso foi confirmado no Brasil, nós já estávamos em lockdown aqui na Austrália e estava muito clara a seriedade da doença”, assim Ariella Lunardi, 26, explicou como foi assistir ao avanço da Covid-19 no Brasil, onde seus amigos e familiares estão. “Só conseguia pensar em como seria quando a doença chegasse no Brasil. Se na Austrália estavam precisando fechar tudo, me perguntava como aconteceria em casa”, relatou.

 

A Austrália é um dos países que hoje estão livres da pandemia. Com a chegada dos primeiros casos, as fronteiras no país foram fechadas, assim como algumas fronteiras estaduais em determinados pontos do enfrentamento. Até hoje apenas cidadãos australianos ou com residência permanente podem entrar no território, com quarentena obrigatória, sendo devidamente rastreados e acompanhados pelo Governo.

 

Durante o lockdown que durou apenas dois meses em sua fase mais rigorosa (março a maio), somente serviços essenciais puderam funcionar, sem exceções, e os cidadãos contaram com generosa assistência pública do Governo como suporte financeiro, rede de segurança para promoção de saúde mental e serviços de prevenção à violência doméstica. Também foi lançado aplicativo para auxiliar no rastreamento de infectados. Em novembro a pandemia já estava controlada na Austrália.

 

Eficácia na vacinação

 

Com atuação semelhante à que tivemos no Brasil no início do surto do coronavírus, os Estados Unidos da América (EUA) se diferiram em um ponto importante: em julho de 2020, ainda sob comando de Donald Trump, os EUA fecharam acordo com a Pfizer e BioNTech, adquirindo 100 milhões de doses da vacina contra a Covid-19, priorizando a imunização no país às medidas de restrição, acordo de compra semelhante ao que havia sido proposto no Brasil, negado pelo Governo Federal.

 

Em dezembro, com a chegada das vacinas, a distribuição logística foi feita para todo o país em uma grande operação; à época os EUA alcançavam 300.000 mortes causadas pela doença. A partir de janeiro as curvas de novos casos e óbitos por Covid vêm diminuindo consideravelmente, como uma resposta provável à eficácia da campanha de vacinação comandada agora pelo governo de Joe Biden.

 

Os dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos mostram que em janeiro o país apresentou os maiores índices de novos casos e mortes por dia, chegando a mais de 250 mil e 4.000, respectivamente. Hoje os mesmos indicadores apresentam números abaixo de 80.000 e 800 e a previsão é que até setembro toda a população nos EUA esteja vacinada. Com 332 milhões de habitantes, 35% da população já tomou a primeira dose da vacina e outros 23% já completaram o protocolo de vacinação.

 

Esperança

 

Margarida Moniz, 66, mora em Antioch, na Califórnia e trabalha como intérprete médica em vários hospitais e clínicas da região. A princípio resistente à vacinação, começou a participar de debates relacionados à imunização e decidiu optar pelos possíveis efeitos da vacinação e não se arriscar. Hoje defensora da vacina, ela acabou sendo convidada para fazer parte de um grande projeto de vacinação, fruto de parceria entre a Guarda Nacional e FEMA (Agência Federal de Gestão de Emergências), entre outros órgãos.

 

“Fiquei muito orgulhosa e feliz de poder contribuir para a prevenção desta doença”, conta. “É possível perceber um crescente alívio na população e a clara redução da ansiedade. As pessoas estão agradecidas pela oportunidade da vacinação”.

 

Esse sentimento de alívio foi confirmado pela Claudia Baroni, 50, que mora em Mountain View, também na Califórnia. “Receber a vacina significa uma liberdade maior de ir e vir, de trabalhar mais tranquila e principalmente de poder planejar uma viagem ao Brasil para visitar minha família depois de quase 2 anos”, disse, deixando claro que o alívio ainda não é completo: “minha torcida agora vai para que o Brasil consiga resolver os problemas ligados ao estoque de vacinas para poder ficar mais tranquila em relação à família e amigos por lá”.

 

Brasil

 

A vacinação abre espaço para que o Brasil deixe de andar na contramão de países desenvolvidos e imunize a população para controlar a epidemia local, entretanto, o cenário ainda apresenta lentidão, com aplicação média de 800 mil doses por dia (nos EUA a média é de 3 milhões de aplicações diárias). A previsão de pesquisadores da Universidade Federal de Juíz de Fora (UFJF), considerando o ritmo atual, é que Brasil só alcance 70% da população vacinada apenas no fim de 2022.