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Do médico ao agropecuarista: os rostos e as histórias por trás das mortes por Covid

Por trás dos números divulgados diariamente pelas secretarias de Estado e dos municípios, histórias de vida e de sacrifício se escondem nas perdas já sofridas nos últimos meses por conta da Covid-19.
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Descrição: Vítima da Covid-19, médico Caio Martins Guedes, de 33 anos. Arquivo Pessoal

Por trás dos números divulgados diariamente pelas secretarias de Estado e dos municípios, há mais de 100 dias, histórias de vida e de sacrifício se escondem nas perdas já sofridas no Tocantins nos últimos meses graças ao Covid-19. 

 

Nas estatísticas constam crianças, jovens, adultos e idosos. De acordo com o boletim epidemiológico divulgado nesta quinta-feira, 25, o Estado passa a ter 9.425 casos positivos e 183 óbitos pela Covid-19.

 

Não é fácil comentar sobre um parente que perdeu a vida para a Covid-19. Dos óbitos registrados até esta quinta, pouco mais de 20 tiveram seus nomes revelados e, destes, somente cinco membros de famílias atingidas pela fatalidade decidiram falar sobre a perda do ente querido. As reações são diversas.

 

O médico Caio Martins Guedes, de 33 anos, morreu na manhã da última segunda-feira , 22, após doze dias internado no Hospital Pilar, em Curitiba. Ele era residente de ortopedia no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, e também plantonista em Bocaiúva do Sul, ambas cidades da região metropolitana de Curitiba.

 

 

"Eu estava rezando, fazendo vigília, três horas da manhã, pedindo a Deus pela recuperação dele (Caio); eu fazia essa oração das três às quatro, rezando com o pai dele, pedindo pela saúde de nosso filho. Às quatro horas, o meu outro filho (Ivo) que foi pra lá dá apoio, ligou dando a notícia da morte de Caio; fiquei sem chão; estou vivendo um pesadelo e quando acordar nada disso aconteceu", comentou Neidinha, ainda combalida com a partida prematura do filho.

 

Ela disse que Caio era um "menino" maravilhoso e que o sonho dele sempre foi ser médico. O doutor Guedes passou por todas as etapas até se formar em medicina, em Minas Gerais. Trabalhou em várias cidades como Araguapaz (GO) e chegou a ser concursado pela prefeitura de Uruana (GO), quando surgiu a oportunidade de fazer a residência médica, começando em Itajaí (SC) e depois foi para Curitiba (PR), onde ele se identificou mais.

 

De acordo com a mãe, Guedes estava no final da residência, muito dedicado em tudo que se propunha a fazer, tinha um grande círculo de amizade. "Dedicado ao extremo à causa médica, tanto que ele morreu fazendo isso", observa.

 

"E foi lá mesmo no centro cirúrgico que ele foi contaminado por um paciente, durante um processo cirúrgico. Ele estava pronto para vir para Palmas, porque entrou de férias e estava programado para viajar na quarta-feira (dia 17 de junho), e na terça (16), se sentiu cansado (tinha bronquite), fez exame e diagnosticou pneumonia; ficou internado. Na quarta-feira mesmo foi conduzido para um outro hospital especializado em covid, sendo levado direto para a UTI", continuou o desabafo.

 

Neidinha conversou por telefone com o filho na quarta-feira (17) e Guedes  disse à mãe que estava melhor, que a dor e a febre tinham passado, mas que iriam entubá-lo, porque o pulmão dele estava comprometido e com insuficiência respiratória. "Cansado, ele me disse que iria desligar porque não aguentava falar durante muito tempo; aí eu fiquei desesperada, meu filho foi entubado", disse com a voz embargada no áudio pelo Whatsapp.  

 

A mãe declarou que Guedes fez dois exames, cujos resultados deram negativo. "Isso é o que me deixa mais angustiada", resume. Ela conta que a família e grupos de amigos começaram a fazer corrente de orações. Passaram-se dois dias e nada de Caio melhorar. No quarto dia entubado, Caio começou a reagir à medicação e se sentiu melhor. "Todos os dias, a infectologista ligava pra mim e me passava o boletim, falava da gravidade do caso dele".

 

No domingo, dia 21, Neidinha recebeu o resultado do boletim dizendo que Guedes estava respirando quase sozinho, que as funções dele estava funcionando, mas que apresentou um estado febril. "Eu nunca, na minha vida, esperava que o quadro fosse se agravar e ter esse final trágico e sofredor".

 

"E o mais dolorido disso tudo é o fato de eu não poder despedir do meu filho. Ele morreu no amanhecer do dia e às 11h foi cremado lá mesmo (em Curitiba). O que eu vou receber dele são só as cinzas. Uma mãe que está com o coração sangrando.  Mãe nenhuma no mundo deve passar por essa dor.  Eu hoje compreendo com mais clareza o sofrimento de Maria vendo seu filho (Jesus) morrendo na cruz", disse. 

 

O relato de dona Sizineide Martins Santos Guedes, a Neidinha da Seduc, servidora da Educação do Estado, emociona. Caio tinha um irmão, Ivo Martins Guedes, e o pai, Carlos Umberto Almeida Guedes, que está muito abalado com a perda do filho. Ela falou com a nossa reportagem na manhã desta quinta-feira, 25.

 

Da primeira vítima aos dias atuais, poucos querem expressar a dor

 

Francisca Romana Sousa Chaves, de 47 anos, foi a primeira vítima do coronavírus registrada no Estado, em Palmas. Ela veio a óbito no dia 15 de abril. Romana era servidora da Secretaria Municipal de Saúde.

 

 

Uma amiga próxima da vítima, Karolyne Botelho, disse que só há pouco tempo conseguiu encontrar palavras em meio a dor da perda da "nossa querida amiga Francisca Romana Sousa Chaves, doce, meiga, suave e dedicada". Ela ressaltou que até hoje seu coração dói pela saudade. "Foram 15 anos em que fomos agraciados com sua presença", acrescentou.

 

"A saudade é grande", diz família de ex-vereador

 

Outra vítima do coronavírus na Capital, cujo parente não apresentou resistência em falar sobre a morte, foi  Everaldo Torres, que morreu aos 52 anos, no dia 12 de maio. Torres foi vice-prefeito e vereador de Lizarda.

 

 

A viúva Juscileide Torres afirmou que ainda sofre muito com a morte do marido, que deixou dois filhos, um de 19 e outro de 12 anos de idade. Ela vem de uma labuta no campo da saúde. Durante seis anos cuidou de Everaldo, que teve aneurisma cerebral e passou a ter crises constantes no sistema nervoso, o que a obrigou a levá-lo com frequência ao médico.

 

Uma dessas crises aconteceu no dia nove de maio. Juscileide conta que correu com ele para uma clínica particular. "Lá mesmo fizeram o teste e no dia seguinte deu resultado positivo para a covid-19; ficou em isolamento e faleceu no dia 12; foi cruel e a saudade é grande", disse.

 

A viúva e o filho de 19 anos também fizeram o teste, no dia 9 de maio de maio e no dia 10 do mesmo mês saíram os resultados positivos. "Imediatamente entramos em isolamento domiciliar, durante 14 dias; graças a Deus, estamos recuperados", explicou Juscileide.

 

No mesmo dia em que faleceu, o corpo de Everaldo foi trasladado para Lizarda para ser sepultado. "O corpo foi levado pela funerária direto para o cemitério; nem tivemos condições de realizar o velório. Isso é muito triste e deprimente", relatou ela. A viúva não sabe como Everaldo adquiriu o vírus

 

Em Dianópolis, familiar reclama de atendimento: rapaz de 38 faleceu

 

Gemivaldo Moreira Barbosa, 38 anos, residente de Dianópolis, morreu no dia 17 de junho no Hospital Geral de Palmas. O paciente tinha obesidade e trabalhava em uma fazenda na divisa da Bahia com Tocantins. Nesta terça-feira, 22, foi o dia da missa de sétimo dia de seu falecimento e reuniu alguns parentes. Nenhum parente de primeiro grau quis se manifestar sobre a morte.

 

Única pessoa da família que decidiu falar a perda do ente querido, Joane Helenrize Araújo, a Helen, prima de Gemivaldo, que deixou um filho e a esposa, além de cinco irmãos, mãe e pai reclama do que acredita ter sido negligência médica.

 

"A nossa família está destruída; nosso primo era uma pessoa muito de boa, muito querido, trabalhador responsável, ele se prevenia da doença e orientava os amigos sobre os riscos do coronavírus. Não sabemos como ele foi contaminado, mas tudo indica que foi no trabalho dele; só sei que dor da perda é muito grande, maior ainda porque a gente não se conforma como tudo aconteceu", disse Helen ao T1 Notícias.

 

No seu relato, ela afirma que desde os primeiros sintomas que Gemivaldo começou a apresentar, no primeiro atendimento médico realizado no hospital de Dianópolis, a vítima foi diagnosticado como estivesse com dengue e os médicos prescreveram o medicamento ibuprofeno.

 

Após cinco dias, passando mal em casa, voltou ao hospital. "A negligência do hospital foi desde o início e a família sofre mais ainda por isso", observa a prima.

 

Gemivaldo começou a sentir os primeiros sintomas da doença no dia 26 de maio. No dia 31, sentiu piora e retornou ao hospital, onde colocaram-no em isolamento. No outro dia, o transferiram para Porto Nacional e, em seguida, para Palmas, quando veio o diagnóstico de que ele estava contaminado; foi entubado, ficou 14 dias na UTI e veio a óbito no dia 17 de junho.

 

"Ele não tinha problema de saúde, não tinha diabetes, nem pressão  alta. Ele tinha um filho de nove anos, uma esposa jovem que ainda está inconformada, pois foram 15 anos de união. Gemivaldo era a frente da família, lutador, guerreiro, lutou muito para viver; a gente não se conforma com forma como perdemos nosso primo, muita negligência desde o início", lastima Helen.  

 

Ainda conforme seu relato, Gemivaldo ficou cinco dias em casa, diagnosticado com dengue, podendo infectar esposa, filho e outras pessoas da família, por conta desse diagnóstico equivocado. “Nem sequer um teste rápido fizeram. A dor da gente é muito grande, principalmente hoje (terça, 23,) na visita de sétimo dia de seu sepultamento", disse a prima, muito emocionada.

 

Helen, abalada ainda com a perda do parente para a Covid, aconselha que todo cuidado é  pouco; "vamos manter o isolamento social e seguir as orientações dos órgãos de saúde, usando máscaras e todas as formas de higienização".

 

Sofrimento dobrado

 

Éder Matias de Aguiar, de 37 anos, morreu no 26 de maio, a segunda vítima da covid-19 em Guaraí. A viúva Daniele chegou a falar com a reportagem, mas dias depois disse que os familiares não autorizaram a publicação das informações. A vítima era autônomo e estava internado no Hospital Regional da cidade.  

 

A família está sofrendo muito com a morte prematura de Éder e, para complicar o quadro de tristeza e desolação, o sogro de Daniele teve um infarto na segunda-feira, 22 de junho e está em recuperação.

 

Jeovana Chefer, sobrinha da Éder, foi a única da família que resumiu a morte do tio como uma perda irreparável. "Nós estamos sofrendo muito, creio que o tempo irá proporcionar dias melhores, o meu tio era uma pessoa muito querida, e buscava constantemente por o trabalho digno".

 

Assim como eles, pessoas reais, com suas vidas e suas histórias engrossam a triste estatística de mortes por Coronavírus no Tocantins.