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Gleidy Braga Ribeiro

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A Carta de Maria Stuart: um diálogo sobre rivalidade entre as mulheres

- Atualizada em
Descrição: Imagem ilustrativa Reprodução/ Vez da Voz

Em 1587, a rainha da Escócia, Maria Stuart disse em carta, escrita momentos antes de ser decapitada, a mando da sua prima, a rainha da Inglaterra, Elizabeth I,  que para ser rainha escocesa teria que ter sido menos mulher. Li e reli a carta por diversas vezes, principalmente esse trecho, e tentei me colocar no lugar daquela mulher, que antes de caminhar em direção ao local de sua morte, sentou-se provavelmente em uma cadeira, apoiou-se em uma mesa, pegou uma pena, e próximo de completar 45 anos de vida, dos quais 19 anos ficou aprisionada, se pôs a escrever as suas últimas palavras.

 

Quanto mais eu viajava na história dessa mulher, mais me perguntava: por que ela colocou em campo oposto o exercício de governar uma nação e a condição de ser mulher?  Será que Elizabeth I, que governou a Inglaterra por mais de 40 anos, teria sido, no comando de sua nação, menos mulher? Foi por isso que ela conseguiu governar até a sua morte? O que Maria Stuart quis passar exatamente quando escreveu que para ser rainha teria que ter sido menos mulher?

 

Amante de cartas antigas, eu sofro com esses questionamentos acima e, se pudesse, entraria em uma máquina do tempo para me sentar ao seu lado no momento em ela escreveu essa carta. Se isso fosse possível, eu avisaria a Stuart que sua carta seria lida por diversas gerações, e por essa razão seria melhor ela ser mais clara quanto essa afirmação, para não criar uma falsa ideia de que mulheres para estarem no poder não podem ser mulheres ou que em seu exercício seria mais adequado agirem como homens.

 

Todavia, o tempo não para, e de sua morte até este exato momento, já se passaram quase 500 anos.  E aqui estamos no ano de 2020, com mulheres que ainda lutam para participar da vida pública. Sofremos diariamente com as pressões daqueles que não acreditam na capacidade das mulheres para o exercício da liderança. Todavia, neste contexto, o que mais me incomoda é ver mulheres atacando outras mulheres. Quando isso acontece, me lembro da rivalidade entre Elizabeth I e Maria Stuart e o que temos que aprender com a história de ambas.

 

A primeira lição é que a ideologia machista pode ser transmitida por mulheres.  Sobre isso, a estudiosa Safiotti (2001) afirma que a ideia que considera o homem um ser superior à mulher, não entra apenas na cabeça dos homens. Está presente também nas cabeças das mulheres que acabam passando isso aos filhos, o que privilegia o homem em prejuízo da mulher.

 

Assim, ter um homem incomodado em ser liderado por uma mulher, seja na iniciativa privada ou no setor público é algo esperado. Isso, porque, historicamente, foram eles, por terem acesso a privilégios, que desenvolveram boa parte do conhecimento difundido e aceito no meio social. Mas, quando esse machismo é expresso por uma mulher, a vontade que me dá é de desistir da insistência de participar desses espaços. É como ser decapitada diariamente por alguém que deveria ter obrigação de incentivar a participação de outras mulheres nos espaços de decisão. É como estar em uma partida de futebol com jogadoras do seu time jogando contra.

 

Enquanto isso, o resultado do jogo é o seguinte: na iniciativa privada, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE,2020), somos 51,7% dos trabalhadores brasileiros, mas somente 37,8% ocupam cargos gerenciais no país. Segundo o Sebrae (2020), somente 34% dos negócios são gerenciados por mulheres.

 

Na política, o cenário é pior; no Brasil, dos 513 deputados, somente 77 são mulheres (Câmara, 2018). E no senado, das 81 senadores, somente 12 são mulheres (Senado, 2019). Dos 27 estados, temos somente uma governadora (TSE, 2018). E esse quadro de desigualdade não se altera, quando olhamos para os números nos estados e municípios em relação aos outros cargos públicos (deputadas, prefeitas e vereadoras).

 

É preciso mudar o placar desse jogo. Não estou a defender que não se faça crítica em relação à competência da mulher quando ela está nos espaços de comando, mas que as críticas sejam fundamentadas nas suas habilidades e nos seus conhecimentos técnicos. Caso contrário, é uma tentativa rasteira de desequilibra-la emocionalmente, para provocar a vontade nela de desistir de tentar ocupar esses espaços. De modo que, no cenário atual, uma mulher ocupar um espaço de liderança é se autocolocar em uma vitrine para um julgamento que não será baseado nas suas qualidades técnicas e sim em assuntos que giram em torno de sua vida pessoal.

 

A segunda lição se refere à vigilância para que não sejamos reprodutores do machismo na sociedade. E neste contexto, é preciso parar, principalmente, entre nós mulheres, de alimentar situações, ainda que aparentemente insignificantes, que só fortalecem essa ideia de rivalidade entre as mulheres, e, consequente, o discurso de que naturalmente somos incapazes para o exercício da liderança, seja na iniciativa privada ou no espaço público.

 

A estratégia para superar essa ideologia machista passa pela educação, seja ela formal ou não. Não é que a educação seja um escudo para proteção contra as ofensas de cunho pessoais, mas a formação pode mudar comportamento; e por outro lado a luta pelo conhecimento é algo importante a ser alcançado por todos, principalmente pelas mulheres.

 

Pois, se para os homens os critérios de seleção, às vezes, são flexibilizados para as mulheres, eles não são. Então, não se engane. A sociedade, com seu discurso falacioso da meritocracia, não oferece condição de igualdade no acesso. Mas, para selecionar os ditos melhores, exige do indivíduo nível superior, e a depender da profissão vai lhe exigir também aprovação em exame específico, especialização, MBA, mestrado, doutorado, pós-doutorado, cursos de línguas, de liderança, de inteligência emocional, entre outros conhecimentos.

 

Os critérios são tantos, que desistir parece ser o caminho mais fácil. No entanto, isso só agradará, tão somente, aqueles que se apropriam desse discurso de inferioridade feminina para nos convencer que somos incapazes.

 

Há alguns dias, li pela internet a história de Darci Mendonça Morena, que aos 71 anos, foi aprovada no temido exame da Ordem dos Advogados, a OAB, que tem aprovação de menos de 20% dos inscritos em todo Brasil; e a das empreendedoras Veronique Ferat, de 61 anos, e a sua sócia, Marta Monteiro, de 64 anos, que iniciaram um negócio de viagens para pessoas idosas com mais de 70 anos, no formato clube.

 

Então, o segredo é começar, não importa o sonho e todas as adversidades. No meio do caminho encontraremos muitas Elizabeths (em referência à rainha citada no começo deste artigo), que mesmo sem consciência dos seus atos, tentarão decapitar nossos sonhos, para nos convencer de que não são para mulheres determinados espaços ou que é tarde demais. 

 

Mas, não precisamos acreditar, continuemos andando, e nesta caminhada, com todo respeito que tenho a história de Maria Stuart e a minha total incapacidade de saber o verdadeiro sentido de sua frase, não sejamos menos mulheres, sejamos exatamente quem nós somos, tomemos consciência disso e sigamos em frente.

 

A vida é um verdadeiro mistério e deve existir algum significado para a existência do seu fim, e por mais que pareça pequena a nossa contribuição, o nosso movimento, enquanto estivermos neste planeta, pode ajudar a mudar o mundo para melhor, e, consequentemente, a vida de milhares de pessoas, em especial das mulheres.

 

Gleidy Braga Ribeiro - Advogada, Jornalista e Professora Universitária; Mestre em Desenvolvimento Regional  e Doutoranda em Direito Constitucional; É vice-presidente do PDT e presidente da  Ação da Mulher trabalhista no Tocantins Já foi Conselheira Nacional dos Direitos da Mulher e Superintendente da Mulher, Direitos Humanos e Equidade da Prefeitura de Palmas. Foi a primeira mulher Secretária de Estado de Cidadania e Justiça do Tocantins E candidata pela primeira vez à deputada estadual em 2018.

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