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Adriano Castorino

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Pressão e sufoco

"Há diferenças entre o racismo brasileiro e o racismo norte americano? Sim, existe, mas há também, como exemplifica a tragédia havida com Floyd, semelhanças"
- Atualizada em
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O racismo, dizem alguns eleitores e apoiadores da extrema direita, é vitimismo, mimimi. Mais recentemente veio a público falas do atual presidente da Fundação Cultural Palmares – FCP que além de inomináveis expressam a total falta de empatia da maior das pessoas que vota, apoia e defende as políticas e políticos de extrema direita. Ele, o presidente da FCP disse em nota, que a nova política da fundação está em linha com o presidente da república. 

 

As incontáveis mortes de crianças nas favelas da cidade do Rio de Janeiro ou São Paulo, e tantas outras cidades, quase sempre resultado de operações policiais, mostra que estas mortes, além de ser indignantes, porque morrem crianças, também são crianças negras, em sua maioria. No Brasil quase a totalidade das atividades laborais que exigem baixa qualificação educacional e, portanto pagam míseros salários, são desempenhadas por pessoas pretas e pardas. 

 

O atual governo brasileiro foi alçado ao poder com amplo apoio de uma parcela da população que, direta ou indiretamente, concorda com a violência policial, mesmo em público se diz cristã. Esse é o quadro nacional em que nos encontramos quando multidões de pessoas tomaram as ruas nos Estados Unidos, revoltados e em reação a morte de George Floyd, que morreu por asfixia, “eu não posso respirar”.

 

Há diferenças entre o racismo brasileiro e o racismo norte americano? Sim, existe, mas há também, como exemplifica a tragédia havida com Floyd, semelhanças. Uma dessas similaridades é a violência policial contra pessoas negras. A violência policial pode ser vista como a prova mais incisiva que temos de que as sociedades escravistas, como o Brasil e os Estados Unidos, ainda não superaram o passado colonial e escravocratas que tiveram. Floyd foi morto por sufocamento, algemado, imobilizado, desumanizado.

 

A polícia, em ambos os casos, é um braço do estado, existe sob supervisão do estado e age a mando do estado. Claro que não é razoável afirmar que seja assim em todas as forças policias. Todavia, ainda persiste uma lógica conhecida, praticada e incentivada tanto na formação das polícias quanto nos protocolos de trabalho do dia a dia, que há pessoas suspeitas, perigosas e potencialmente criminosas em princípio. 

 

Isto é, as forças policias olham para o conjunto das pessoas e conseguem, por essa visão racista e desumana, ver nas pessoas negras, de modo principal, as marcas da delinquência. Assim, partem para cima dessas pessoas com a raiva brutal que trazem dentro si, muitas vezes essa raiva foi plantada na corporação policial dentro das corporações policiais. A raiva incentiva a revanche, como vemos agora no vasto apoio destas mesmas forças policiais que, no Brasil, apoiam o atual presidente da república.

 

A cena da morte de Floyd, a de um policial, branco, impassível, com o joelho pressionando o pescoço do homem negro, é de um horror, de uma frieza que nem dá para imaginar tal cena depois de tantas lutas em favor da igualdade. Mas a cena é real e por ser tão abjeta levou tanta gente às ruas e dominou a pauta, toda ela, a pauta, até então tomada pela Pandemia da Covid-19, outro mal de nosso tempo.

 

A morte do adolescente João Pedro no Rio de Janeiro, cuja casa em que estava recebeu mais 70 tiros, não causou tanta comoção. No nosso caso, estrelas dos esportes, pessoas pretas ou pardas, que normalmente vieram das periferias, depois que ficam ricas fazem fundações de ajuda, em alguns casos, levantam camisas com inscrições de Jesus, mas quase nunca, nunca mesmo, se levantam contra o racismo. 

 

Lá nos Estados Unidos, atletas negros, em sua maioria mas não somente estes, que tem os bens como os tem os atletas brasileiros mais bem pagos, lá são vozes constantes em favor da igualdade racial. As vozes de atletas, artistas, atores e atrizes fazem muita diferença no enorme levante que agora se vê nas ruas norte americanas. Aqui no Brasil, o conjunto de artistas da música, atores e atrizes, artistas de todas as artes, militantes, todos negros e negras tem levantado a voz, mas quase nunca são acompanhados pelos astros do futebol e demais atletas de renome. Aliás, dentre os vários atletas do futebol, mais destacados e bem pagos, sendo negros ou não, há vários que apoiam e, como declaram o voto, votaram no atual presidente da república. 

 

Na democracia todas as pessoas podem e devem votar em candidatos da escolha pessoal. Mas tem algumas linhas que são intransponíveis, que jamais deveriam ser apoiadas e nem endossadas com um voto: o racismo é uma dessas linhas. Um candidato racista, por mais que tenha ideais políticas em outras áreas, jamais poderia ser eleito. Lá nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump trouxe de volta uma espécie de revanche de alguns eleitores brancos, e de eleitores conservadores, indignados por ter vivido 08 anos sob o governo de um homem negro. Esse comportamento de revanche pode ser visto aqui também. 

 

Os levantes de protesto nos EUA vão, de alguma forma, colocar um ponto final nesse revanchismo conservador que elegeu uma pessoa tão genocida quanto Donald Trump. Não sei se forte o bastante para romper os grilhões do racismo, mas que vai mudar o panorama político em favor daquilo que Obama fez, ah, isso vai. 

 

Aqui no Brasil, não vejo ainda nem como vencer o racismo, nem como enfrentar o tema da violência policial, nem tampouco como dialogar com pessoas que defendem, em nome de Deus, inclusive, o atual presidente da república. Talvez, como em miragem, seremos contaminados pela influência dos protestos norte americanos e, de alguma forma a partir dessa consciência de que o racismo existe, está entre nós, possamos passar a limpo nossa história colonial, escravista, autoritária. Não há democracia possível se parte da sociedade ainda deseja considerar o racismo como algo normal, nem haverá democracia se a violência for vista com naturalidade como o fez o policial branco que matou Floyd. 

 

Paradoxalmente, o presidente da república que sempre privilegiou os EUA nas relações de seu governo, talvez venha mesmo lá a solução para que as pessoas, independente de bandeiras e credos, possam ir às ruas e comecem, pela manifestação livre, democrática, uma mudança que destape nossos olhos e ouvidos. Assim, passaremos ver que pode haver outro mundo além desse mundo de morte, sufoco e desesperança em que vivemos agora.

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