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Roberta Tum

Roberta Tum


roberta.tum.9 @robertatum
Colunista do editorial Minha Opinião

Bastidores
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Discurso de voto nulo para revoltado ver: debaixo do quieto, líderes fazem arranjos

No caminho até as urnas - eu já disse aqui, e repito - existem dias e noites, práticas que podem gerar processos por improbidade e mais ainda: crime eleitoral
- Atualizada em
Votação no segundo turno será no próximo dia 24 Divulgação/TRE

Tenho me batido nas redes com seguidores, amigos e desconhecidos, contra o voto branco e nulo. Por um simples motivo: no mundo real, quem não escolhe é escolhido.

 

Trocando em miúdos: lavar as mãos nesse processo não te faz melhor que ninguém e ainda te deixa à mercê das escolhas alheias. Na prática, a bem da verdade, o voto branco, o nulo e a abstenção só favorecem quem está na frente. Ou não?

 

Então, quem está agindo assim, está ajudando a eleger o presidente da Assembleia e governador interino Mauro Carlesse. Não tem essa lógica de voto de protesto. Tem, na prática, eleitores decepcionados por que seus candidatos não foram para o segundo turno, embirrando contra os dois que ficaram no páreo. E tem a turma do: “ah, todo político é sujo, ninguém presta, é a briga do sujo com o mal lavado”.

 

Que eleitores mais alheios à política não consigam perceber que não existem tons de cinza entre Carlesse e nego Vicente, o senador Vicentinho - tocantinense  da gema do ovo caipira, dos que se fizeram na poeira dessa terra, goste-se ou não de suas escolhas (incluindo ter apoiado o impeachment de última hora, e votado a reforma trabalhista defendida por Temer) - é compreensível. O duro é ver gente inteligente, sabida na política, engolindo e repetindo esse discurso.

 

Há muitas, mas muitas diferenças entre os dois. E não adianta também simplificar o discurso dizendo que um é laranja de Siqueira e outro e laranja de Marcelo. Não tem laranja nesta história.

 

Carlesse está nessa posição por que se esforçou MUITO para tanto. Gastou seu rico dinheirinho, ficou mais pobre R$ 32 milhões entre se eleger deputado estadual, presidente da Assembleia, ser “agraciado” pela cassação de Miranda e dar com as costas na cadeira de governador.

 

Nego Vicente, por sua vez, já carregou a pasta de Siqueira muitas vezes, já promoveu lá atrás a reconciliação entre Siqueira e Kátia Abreu, que permitiu que o Velho comandante voltasse ao cargo de governador, vencendo por uma diferença mínima, o então governador de mandato tampão, Carlos Gaguim. 

 

É muita história, muita água por debaixo da ponte.

 

A turma de Siqueira precisava de um candidato, e de um chapa para que o ex-governador fosse candidato ao Senado confortavelmente.

 

A turma de Marcelo precisava de um candidato para ter onde se encostar, se reorganizar, manter-se viva na política até outubro.

 

Fora isso, Carlesse governa dono da caneta, não é marionete a não ser do seu desejo de ganhar a eleição.

 

Fora isso também, Vicentinho é quem comandará o Araguaia caso vença as eleições de virada dia 24 de junho. Marcelistas ficarão na sombra. Não tenham dúvida. Mas sem comandar nada.

 

Nos bastidores todos se articulam e de olho em outubro, liberam aliados e apoio indireto aos que venceram.

 

Depois que dois adversários de peso ficaram de fora do segundo turno por erro de estratégia, ao não mensurar bem suas forças (ou ao achar que poderiam ganhar sozinhos sem as composições certas), tanto Carlos Amastha, quanto a senadora Kátia Abreu adotaram o discurso de que não apoiarão ninguém e deixarão as composições para outubro.

 

Esta é uma meia verdade. Amastha e Kátia, por exemplo, já conversaram por horas depois da dupla derrota. E nos bastidores, através de aliados, começaram a falar em composição de uma frente para disputar as eleições. Muita gente de Amastha, a exemplo dos prefeitos que fazem a base de Ricardo Ayres, já está com Carlesse. E muita gente de Kátia, a exemplo de Amália e Santana, ficaram com Vicentinho.

 

O ex-prefeito de Palmas, embora rico o suficiente para ser capaz de bancar sua eleição, deixou faltar gasolina para seus militantes e coordenadores na última semana. O que levou aliados próximos a duvidarem de que será candidato em outubro para valer.

 

Amastha sinalizou para um acordo com o grupo de Kátia, mas já desdenhou três nomes ao Senado e caminha para construir uma aliança com Ataídes Oliveira em sua chapa ao Senado e o PT de vice.

 

Kátia Abreu não abriu conversações com Vicentinho, que a procurou logo que o resultado das eleições foi anunciado. Vicente Júnior sentou com Irajá Abreu - que na prática é o candidato do grupo para outubro - mas a conversa não evoluiu.

 

O que aconteceu logo em seguida ao resultado das eleições foi uma debandada. “Ficaram conosco os orgânicos. Os que eram nossos desde o início, cerca de 69 prefeitos”, me disse Vicentinho no começo da semana.

 

Para o Palácio migraram todos que viram aí uma oportunidade de ainda ser governo, uma vez que acreditam que com a caneta na mão, a chave do cofre, e a capacidade de fazer promessas, Carlesse dificilmente perca em 24 de junho.

 

Só que não é bem assim.

 

No caminho até as urnas - eu já disse aqui, e repito - existem dias e noites, práticas que podem gerar processos por improbidade e mais ainda: crime eleitoral.

 

Se for com muita sede ao pote, como começou a campanha, Mauro Carlesse pode quebrá-lo.

 

Não sei se é lenda ou verdade, mas corre nos bastidores que o governador interino teria recebido uma ligação de Sandoval Cardoso. “Essa turma que está aí me colocou na cadeia. É o que vai acontecer com você, fica esperto”, teria dito Sandoval.

 

Um aliado próximo a Carlesse desconhece a ligação, mas disse que o mesmo alerta já foi feito ao governador presidente candidato, pela senadora Kátia Abreu.

 

O fato é de que os tempos são de turbulência e incertezas no Tocantins.

 

O aceno aos servidores concursados de que será possível pagar progressões, data-base e até o desejado alinhamento da Polícia Civil, que elevará ao status de nível superior servidores de nível médio, com acréscimos da ordem de R$ 3 a R$ 4 mil em seus salários, faz brilhar os olhos do funcionalismo. E joga esta turma toda na campanha.

 

Em Taquaruçu, no primeiro turno, a Polícia Militar deixou de atender chamadas com denúncia de compra de voto. “Estava valendo R$ 50,00 o voto na cidade e R$ 20,00 na Buritirana”, me disse um vereador. 

 

Se a polícia agora tiver partido, estamos todos muito mal arranjados.

 

Voltando ao início, o eleitor é senhor de si para fazer o que quiser. Escolher ou terceirizar a escolha.

 

A diferença é que quem participa, assume o risco e age com a coragem de decidir por si quem vai governar até dezembro. 

 

Quem lava as mãos, embarca no discurso fácil da revolta e do protesto.

 

E ainda passa recibo de massa de manobra, enquanto líderes fazem, nos bastidores, os acordos que julgam necessários para, lá em outubro, ganharem a chance de voltar à cena.

 

Aguenta, Tocantins!