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Roberta Tum

Roberta Tum


roberta.tum.9 @robertatum
Colunista do editorial Minha Opinião

Análise
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No dia depois de amanhã: a vida é decidida pelos que votam, não pelos que abrem mão

Numa eleição em que 491 mil eleitores decidiram o destino que mais de um milhão poderiam optar por escolher, algumas lições saltam aos olhos. E um desafio: como envolver os que insistem em ficar fora
- Atualizada em
354 mil eleitores faltaram às urnas no 2º turno no Tocantins Divulgação

O Tocantins escolheu ontem seu governador para os próximos seis meses. E ele é Mauro Carlesse, paulista que chegou a Gurupi para investir, comprar fazenda, fazer negócio e de lá decidiu que entrar na política, no Tocantins, era uma boa alternativa. Como dizia um jornalista goiano, amigo meu: uma terra de estrangeiros. 

 

Tentou para prefeito, não deu. Tentou para deputado, chegou à Assembleia na bacia das almas, mas chegou. De lá, sua história mais conhecida não era o que fez, mas o que deixou de fazer: o episódio da prisão “domiciliar”, por falta de pagamento de pensão. Processo de separação turbulenta que veio a público na reta final da campanha, revelando o jeito de agir do presidente da Assembleia e governador interino, nos negócios. Um furor. Omissão de patrimônio, aí talvez seja a acusação mais grave, e que importa para a Justiça Eleitoral. Veremos.

 

Nada na história de Mauro Carlesse, no entanto, o desabonou para a maioria dos que foram às urnas e cravaram nela um voto válido. Esta é a realidade. Como dizia ontem um dos seus defensores: “há que primeiramente aceitar o resultado das urnas”.

 

O resultado é este: Carlesse 368 mil 553 votos. Vicentinho 121 mil 908 votos. Anularam seus votos 155 mil e 627 eleitores, dos que foram às urnas. Outros 17 mil 209 votaram em branco. 

 

Este resultado fala e fala muito sobre o eleitor tocantinense envolvido no seu dia a dia com a escolha política. A escolha partidária. Aqueles que não fogem dela. Que não abrem mão de escolher.

 

E estes - que me desculpem os outros, do voto de protesto no nulo e no branco -  estes são os que importam. A vida, afinal, o dia depois de amanhã é decidido por eles. Por que é com eles que os políticos falam. E queira ou não a turma do branco e do nulo, são esses que decidem. 

 

E de certa forma muitos dos que decidem o fazem na expectativa de estar dentro. Inseridos no contexto do governo que vai ganhar. Não importa quem seja.

 

Isso explica a diferença entre os 50 mil votos de frente que Carlesse teve sobre Vicentinho se ampliarem para 245 mil. Esses 195 mil eleitores de diferença deram uma banana para o discurso dos candidatos derrotados no primeiro turno, de que deveriam votar nulo ou em branco. 

 

São seres políticos, envolvidos na política, na disputa comezinha do dia a dia das cidades do interior. Lá não tem essa de lavar as mãos, é preciso escolher um lado. Para ganhar ou para perder, e de preferência, lógico, para ganhar. Mas a sobrevivência política no interior, mais que na Capital e nas maiores cidades do Estado, está em ter lado. Até por que, quando as eleições municipais chegarem, existem no mínimo dois grupos e quem perdeu a eleição majoritária tem grupo a apoiar em cada cidade para garantir sua sobrevivência política. Faz parte do jogo.

 

É por isso que soam infantis uns e outros questionamentos que li ontem nas redes sociais, especialmente no Twitter, onde a discussão política é intensa. “O que fazer com o interior?”, perguntam alguns, como se o interior fosse a chaga moral tocantinense.

 

Ora, o que fazer. Cair pra dentro. Viver o Estado, compreender a realidade do interior do Tocantins. Trabalhar para mudá-la. Acabar com a dependência do poder público lá, com um projeto real de desenvolvimento. Que óbvio, não tem nada a ver coma realidade de Palmas, por exemplo.

 

À margem deste processo de escolha, no entanto, ficaram milhares que são capazes de decidir a eleição de outubro.

 

Os mais de 350 mil que não foram às urnas votar, o fizeram pela absoluta falta de motivação. Tinham mais o que fazer, que consideram importante. Mais que sair de casa no domingo para escolher quem vai governar o Estado em que moram pelos próximos seis meses.

 

Quem foi e decidiu cravar o branco ou o  nulo está dizendo: “meu candidato não ganhou no primeiro turno, então não quero votar em ninguém”. Ou senão: “nenhum desses me representa”. Ok. É um direito de expressão exercido na urna. O direito de lavar as mãos na escolha.

 

Portanto o recado mais perigoso das urnas é o da turma do “tô nem aí”.

 

Por que na prática estão dizendo que não estão nem aí para muita coisa.

 

Para quais medidas virão nos próximos dias de governo.

 

Para demissões em massa sucedidas pelas contratações de cabos eleitorais.

 

Nem aí se o Estado vai ter certidão -  por que hoje não tem - para continuar tocando a vida no que se refere a financiamentos, recebimento de recursos de convênios.

 

Nem aí pra bagaceira, no bom português.

 

Deixaram para decidir em outubro, ou de repente, nem isso.

 

Em números frios, 354 mil eleitores aptos deixaram de ir votar.

 

Dos 663 mil que foram, 172 mil cravaram votos brancos e nulos, seu protesto.

 

E enfim, 491 mil eleitores decidiram o destino do Tocantins para os próximos meses.

 

As reclamações contra o modus operandi de Carlesse na campanha e no governo são muitas.

 

Há processo sigiloso correndo por prática de crime eleitoral. Por improbidade. Contratações ilegais, descumprimento de ordem judicial, repasse de recursos a municípios cujos prefeitos são aliados, perseguição aos que não quiseram se juntar.

 

Se tudo isso impedirá que Carlesse governe durante seis meses, é difícil precisar.

 

Se o governador eleito chegará elegível às eleições de outubro, também não dá para arriscar.

 

Tudo no destino do Tocantins, por hora, é incógnita.

 

Mas tem uma coisa que está muito clara: com tudo que se sabe de como o Estado está, e de como a política da concessão de benefícios acenada a servidores durante a campanha pode dar mais fundo ainda nas contas públicas, a maioria dos tocantinenses que foi às urnas escolheu seguir com Mauro Carlesse.

 

E não importa se abstenções, brancos e nulos somados representam mais que o governador eleito e o senador derrotado juntos.

 

É assim que funciona. Vida que segue.

 

God Bless o Tocantins.