Palmas, Tocantins -

Minha Opinião

Roberta Tum

Roberta Tum

roberta.tum.9 @robertatum

Colunista do Editorial Minha Opinião


Análise
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O poder, esse cachorrinho indócil, que Cinthia aprendeu a domar

Cinthia venceu a si mesma, e superou as armadilhas.. Construiu sua base e a manteve firme na disputa contra onze candidatos a prefeito. Teve vitória maiúscula ao fim de uma campanha positiva
- Atualizada em
Descrição: Cinthia Ribeiro (PSDB) comemora a vitória. Edu Fortes

A vitória da prefeita Cinthia Caetano Ribeiro – do PSDB -  nas eleições de Palmas, ontem, domingo, 15, com a maioria expressiva de 46.246 votos traz significados maiores do que no raso, as pessoas fora do jogo político conseguem imaginar.

 

Em 2016, quando foi escolhida candidata a vice-prefeita, numa opção pessoal de Carlos Amastha, ela era apenas a viúva do senador João Ribeiro, com um sobrenome forte e a legenda do PSDB (então sob controle do então senador Ataídes) que tinha tempo de TV a oferecer e uma composição interessante.

 

Agora já não é mais.

 

Quando, em 2018, assumiu a prefeitura de Palmas, para que o então prefeito eleito, se candidatasse a governador numa eleição tampão, recebeu a prefeitura com 70% do orçamento comprometido. 

 

“O bom cabrito não berra”, disse em coletiva, um ano depois, quando perguntada sobre o motivo para não ter aberto a boca alí, sobre o cenário difícil de administrar que encontrou.

 

Apoiou o antecessor com lealdade inquestionável, em duas eleições majoritárias: a proporcional e a do calendário comum, angariando a antipatia do time em torno de Mauro Carlesse, que venceu as duas.

 

O governo não ajudou Cinthia quando a pandemia estourou. Demorou afinar o discurso. Tudo sequela das duas eleições, mas ela seguiu firme.

 

Errou na condução das medidas da pandemia? Seus adversários construíram esse discurso na cidade. Ancorado na insatisfação de boa parte do empresariado, que teve que fechar temporariamente. Alguns fecharam definitivamente. Assim foi não só em Palmas, mas no País todo.

 

Na minha avaliação Cinthia acertou mais que errou. Na gestão e na campanha.

 

Com onze candidaturas disputando o mesmo espaço político que ela, só teve tratamento civilizado por parte do professor Júnior Geo, deputado estadual, que ficou em segundo na disputa. Isso considerando os que disputavam a eleição com ela. Boa parte dos indecisos das últimas duas semanas, migrou para ele, garantindo um segundo lugar que ia se esvaindo no acelerar da reta final.

 

Cinthia teve que se libertar da tutela de Amastha para sobreviver. A briga, ocorreu por dois motivos: a negativa em pagar contas de campanha que não fez, e a negativa em manter secretários que ela não queria. Gente que tinha seus esquemas de poder. Gente que a ignorou quando era vice.

 

Uma vice alijada das decisões de poder, que tinha um carro velho para circular e de quem se esperava subserviência. Não tinha como dar certo.

 

Na campanha, veio a crise do primeiro vice.

 

Depois a escolha de André Gomes, que pelas condições de saúde (obesidade, grupo de risco) não saiu de casa para pedir votos. Mas garantiu na sua ausência, a presença de um gigante: Eduardo Gomes, senador. 

 

Este que trabalhou como se fosse ele o candidato a prefeito. Alinhavou acordos, apoiou candidatos a vereador (além dos seus) de outras legendas, mas necessários para ampliar a base de Cinthia. E bloqueou maiores influências negativas que poderiam vir do Palácio Araguaia na campanha.

 

Resultado: Carlesse não se envolveu para prejudicar Cinthia. E depois do rompimento com Eli Borges, não entrou na campanha de Vanda Monteiro, como alguns companheiros desejavam.

 

Dentro do seu grupo político, administrar algumas vaidades não foi fácil.

 

Grupo grande, muitos vereadores de mandato. Alguns sacrificados na briga de gigantes, como Major Negreiros, que fazia o contraponto ao poder dos Barbosa em Taquaruçu e ficou sem mandato.

 

Mas as grandes estruturas deixaram de fora também desafetos da prefeita. Milton Néris, adversário histórico, não concorreu.Tiago saiu para prefeitura, e perdeu.

 

 Diogo Fernandes e Lúcio Campelo, que oscilaram muito no último ano e retornaram no badalar dos sinos à base de Cinthia, ficaram na suplência. 

 

Folha, que foi companheiro até debaixo d’água e ajudou a barrar a tentativa de afastar Cinthia por três meses com um pedido de impeachment, se reelegeu.

 

A turma batedora, perdeu eleição: o rapaz da feira dos carros e da TV no Youtube, e o outro do Som. Ambos fizeram uma campanha intensa e desonesta contra a prefeita com apoio de vereadores que oscilavam na sua base. A urna não perdoou.

 

A campanha dos vereadores dá um artigo a parte.

 

O fato é que Cinthia está reeleita. São quatro anos de mandato que ela disse ao Blog semana passada, que não pretende abandonar no meio.

 

Conservadora, mas longe de ser homofóbica, como a militância digital quis apregoar usando o antigo áudio vazado do Mujica, ela tem o desafio de ampliar sua gestão para atender a todas as políticas públicas. As que favoreçam mulheres, LGBT’s, população de rua..

 

Evangélica, mas respeitosa com as demais denominações religiosas, tem o desafio de construir um calendário de eventos mais inclusivos que o Carnaval da Fé que herdou e que apoia. 

 

Com partidos ligados ao Presidente e com seu líder na campanha, mas longe de ser bolsonarista como seus adversários não cansaram de apregoar, sabe que como prefeita tem que manter a linha e circular em busca de apoio e recursos. Seu PSDB, e de Dória, certamente terá candidato à presidência da República...

 

As lições do poder

 

O poder não é um cachorrinho dócil que pula no seu colo. A frase, de um conselheiro político para Birgiite Nyborg, personagem da série “Borgen”, da Netflix, é uma pérola que lembrei na reta final da campanha no meu Instagram. A prefeita fez a mesa citação no seu Twitter.

 

Cinthia teve que domar seus impulsos de responder a todos os ataques, engolir situações desconfortáveis, administrar egos e crescer na inteligência emocional para tocar a campanha e vencer as eleições. Venceu a si mesma. Venceu os adversários. 

 

Pode se consolidar como uma liderança nova, expressiva, uma alternativa de construção de um grupo a partir da capital.

 

O que fará com seu capital político ainda é difícil de saber. Teve sorte. Teve fé. Mas teve muito trabalho. 

 

Que siga nessa linha, positiva e atuante. Palmas precisa. Palmas merece.