Saída de Cinthia para amamentar gera ataque de Janad, defesa de Folha e repercute

Presidente sobe o tom em sessão solene, para a qual convocou claque, e ataca a prefeita que saiu para amamentar... É o caos da péssima relação institucional que Janad impõe aos dois poderes em Palmas

Uma das notícias mais aguardadas nos últimos anos no Legislativo Palmense é a construção da sede própria da Casa, pleiteada com mais vigor desde o primeiro mandato de Carlos Amastha. Um dos mais veementes defensores da obra é o vereador José do Lago Folha Filho (Patriotas), que integra a base da prefeita, Cínthia Caetano Ribeiro Mantoan.

 

Pois “fora a parte” – como se diz no bom tocantinês – a mensagem da prefeita lida na Casa na terça-feira, 8, elegendo a Educação como prioridade neste 2022 de retomada das aulas presenciais, o anúncio da construção da sede própria foi a melhor notícia que o parlamento poderia esperar.

 

Mesmo assim, o que sobrou da sessão solene foi o forte ruído que ainda provoca a presidente da Casa, Janad Valcari, na tentativa de um protagonismo às avessas que fere a civilidade e instala na relação dos dois poderes, um tom chulo, deselegante, desnecessário. Mesmo que sua atuação seja preferencialmente contrária à prefeita, na busca por ocupar um espaço de oposição que ela enxerga como majoritário, numa leitura simplória do resultado da eleição de 2020.

 

A presidente comete dois erros: o primeiro porque nos ataques que faz - chega a ser raivosa no tom e nas palavras – ela não desgasta apenas a imagem da prefeita, como intenta fazer. Desgasta a própria imagem que deseja construir, de defensora de uma independência do legislativo. E deixa no ar que a Câmara Municipal segue palco de baixarias. Quando é o tom estridente que Janad adota, o que ecoa na cidade e nas redes sociais, ficam abafadas as vozes mais equilibradas de outros vereadores, melhor de verve e de tom mais civilizado.

 

Pois bem, o que era uma sessão solene terminou em bate boca quando a vereadora subiu o volume e baixou o nível em seu discurso já no adiantado de mais de duas horas e 25 minutos de sessão.

 

Desqualificando a prefeita como gestora, a presidente da Casa utilizou expressões como “prefeita fujona” para Cinthia Ribeiro, que já havia falado, deixado na sua mensagem de ano, o compromisso com a construção da sede do Legislativo Municipal e ouvido diversas falas de vereadores. “Ela saiu pela porta dos fundos (...) não preciso dos seus favores, não preciso dos seus cargos, não preciso dos seus presentes entregues na calada da noite, por que quem anda na calada da noite, escondido, é ladrão”, disse Janad Valcari.

 

Pausa para meditação.

 

Seria melhor explicar que presentes são estes, para quem foram entregues, por quem. É fato grave o que as palavras da presidente insinuam, sugerem. Seria presentes de que natureza? Entregue a vereadores, pares seus?

 

Fecha parênteses.

 

Na sua determinação de desconstruir a imagem da prefeita, na medida que busca construir a sua, como contraponto a de Cinthia, Janad seguiu com a desqualificação da chefe do Executivo.

 

A vereadora acusou de birra a prefeita, que no seu entendimento, deveria ter doado uma área o ano passado à Camara, para que a Casa contraísse empréstimo que ela própria simulou na Caixa Econômica, e que ficariam em parcelas menores que o atual aluguel pago pelo prédio ora ocupado.

 

Lembrete: Janad assumiu, já na primeira sessão sacando da algibeira um projeto arquitetônico que ela mandou fazer, um ofício pedindo uma área e a garantia da promessa de que a Caixa financiaria o prédio.

 

Detalhe: quem contrai dívida é o Executivo. O Legislativo não tem figura jurídica para fazê-lo. Por questões óbvias, sem planejamento, destinação orçamentária, sem área determinada, sem projeto licitado para construção de prédio público, todo o resto era imaginação. Nem com muita boa vontade poderia ser feito a toque de caixa. Na iniciativa privada, talvez. Na pública, não funciona assim.

 

Pois neste começo de 2022, Cínthia Ribeiro chegou ao plenário da Câmara Municipal acenando com a construção, pelos cofres públicos do Executivo, da desejada obra. Se Janad protagonizou na entrada, poderia agora, elegantemente, agradecer o gesto, que zera uma expectativa de anos e relembrar que Cinthia está atendendo pedido que foi seu, feito no ano passado.

 

Mas a política - a arte da boa convivência, de articular em torno de um resultado desejado -, não é matéria que a presidente da Casa estudou. Se assim tivesse feito não teria provocado entre seus próprios apoiadores na Casa, a debandada que houve do ano passado para cá.

 

Não é equívoco afirmar que Janad entra o ano ilhada. A base da prefeita hoje tem 15 dos 19 vereadores. Não bastando os ataques do seu próprio discurso, relutou em conceder a palavra ao vereador Folha para que ele explicasse, em viva voz, o que já havia dito lá em cima, para a presidente, em voz baixa: que a prefeita saiu discretamente, após duas horas de sessão para amamentar o filho, Vittorio, com pouco mais de dois meses. Folha foi além e respondeu a Janad que a Cinthia não é “prefeitinha”, termo esnobe com o qual a presidente da Casa tentou diminuí-la, mas prefeita de todos os palmenses, inclusive dela, Janad.

 

A presidente não se conteve e, antes de dar a palavra à vereadora Iolanda Castro (que por sinal fez seu discurso ignorando o debate e perdeu a oportunidade de defender que, como toda mulher, a prefeita tem direito de amamentar o filho), voltou à carga. Disse que entende que amamentar é um direito e que ela, como mãe, também amamentou. No seu entendimento, Cinthia deveria ter pedido licença maternidade para cuidar do filho em casa. Ou senão deveria levá-lo com ela: “que foi o que achei que ela faria”.

 

Ao comparar novamente seu período de amamentação com o da prefeita, ignorou que estamos no período mais crítico da pandemia, com uma variante perigosíssima no quesito transmissão. Faltou sensibilidade.

 

As redes não perdoaram o ataque, as manifestações foram majoritariamente em favor da prefeita e contra o tom adotado por outra mulher num assunto tão delicado, e que causa debates sempre que surge no meio político: o direito de amamentar. A repercussão mais uma vez foi péssima.

 

Com o cenário político completamente diferente do que a cidade vivia há um ano, quando a presidente assumiu o legislativo com o apoio de 12 dos 19 vereadores, Janad Valcari vive dias de isolamento onde só conta com mais três vereadores, além dela, fora da base da prefeita.

 

O gesto de Cinthia, a construção da sede, o novo momento que Palmas vive, em que a gestão tenta retomar o crescimento e um novo normal, perderam a cena para o “ataque” de Janad, que completou dizendo o que setores da oposição sempre repetem: que a Cinthia não foi eleita pela maioria. Para isso sacou os dados eleitorais que demonstram que a prefeita teve 36,24% dos votos.

 

O que, como professora que é, Janad deveria compreender que é a maioria dos votos é questão de matemática e não de semântica. No universo de todos os palmenses que foram às urnas exercer seu direito de escolha, a prefeita eleita venceu majoritariamente uma disputa contra 11 candidatos: 10 homens e uma mulher.

 

São as regras. As mesmas que permitiram a eleição de Janad Valcari, com forte poderio econômico, sobre todos os demais candidatos a vereador do Podemos.

 

E ignorá-las, por conveniência, não é bem um exemplo de comportamento democrático.

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