Palmas, Tocantins -
Discriminação nas redes sociais
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Vereador discrimina líder quilombola e incita preconceito ao atacar Vicentinho

Mal começaram a circular nas redes sociais as fotos da passagem de Vicentinho pela casa de Dona Juscelina e o candidato já virou alvo de comentários preconceituosos e de discriminação religiosa
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Candidato foi convidado por líder quilombola a rezar um Pai Nosso Divulgação

A corrida pelo governo do Tocantins ganhou um capítulo de discriminação na reta final rumo às eleições deste domingo, 3 de junho. O fato aconteceu na cidade de Muricilândia, nesta quarta-feira, 30, onde Dona Lucelina Gomes dos Santos, de 88 anos, conhecida como Dona Juscelina, lidera uma comunidade quilombola, assim reconhecida pelo Governo Federal desde 2007. A caravana do candidato a governador, Vicentinho Alves (PR) passava pelo local e foi acolhida por Dona Juscelina em sua casa, quando ela convidou o candidato a se colocar diante do altar onde ela faz suas orações para que ele pudesse ser abençoado pelo Divino Espírito Santo.

 

Mal começaram a circular nas redes sociais as fotos da passagem de Vicentinho pela casa de Dona Juscelina e o candidato já virou alvo de comentários racistas, preconceituosos e de discriminação religiosa em grupos de WhatsApp na cidade de Porto Nacional e no Facebook. Entre os comentários, se destacou o do vereador Geylson Gomes, que afirmou: “após reuniões em Muricilândia, candidato a governador Vicentinho Alves vai ao terreiro de macumba pedir despacho para ganhar as eleições”. Da mesma forma, um perfil no Facebook denominado "Eu Amo o Tocantins" também replicou a foto do candidato com mensagem pejorativa.

 

Liderança forte e religiosidade simples

 

Habitando há décadas uma região que congrega cerca de 3 mil quilombolas, dona Juscelina é das lideranças simples, que mantem sua casa e sua porta abertas a toda a comunidade, independente de corrente política. No altar retratado nas fotos, que foram replicadas pelo vereador nos grupos de discussão política de Porto Nacional, o que se vê são imagens de Nossa Senhora Aparecida, de Padre Cícero Romão Batista (cuja memória é lembrada e cultuada pelo povo nordestino em geral), além de cartazes com imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Maria.

 

Vicentinho reage

 

O candidato a governador, senador Vicentinho, reagiu às postagens do vereador nas redes sociais. “É preciso respeitar uma senhora 88 anos, liderança consolidada da comunidade quilombola, religiosa, cristã, que nos recebeu em sua casa com toda boa vontade”. Segundo o candidato, na caminhada que ele fazia, rumo ao local da reunião que realizou em Muricilândia, adentrou a casa e foi convidado a fazer uma oração. “Ela perguntou se eu tinha fé e me convidou para rezar um Pai Nosso e a parte do terço que eu já conheço, da minha origem cristã”.

 

De acordo com o candidato a governador, esse tipo de manifestação apenas estimula o preconceito e a exclusão das pessoas. “Eu tenho descendência negra e entendo que nós temos que respeitar todas as manifestações religiosas, sejam quais forem. Quero ser governador de todos, para todos. Estarei aberto ao diálogo com evangélicos, espíritas, católicos, umbandistas, enfim, com todos que queiram dialogar comigo”.

 

O T1 Notícias entrou em contato com o vereador, por meio de ligação e por mensagens, mas o portal não foi atendido. Deixamos o espaço aberto para posicionamentos.

 

Feccamto manifesta preocupação

 

A presidente da Federação das Casas de Culto de Matriz Africana no Tocantins (Feccamto), Iyalorixá Ifaloré Efuntolà, Roberta de Osoguiã, manifestou sua preocupação de que, neste momento de disputa política, “pessoas inescrupulosas” usem de tais argumentos para reforçar ainda mais o racismo e a intolerância religiosa.

 

“É um absurdo que um parlamentar, um vereador, claramente de descendência negra, vá para uma rede social atacar um adversário, usando para isso, termos que revelam sua completa ignorância do que são as religiões de matriz afro-brasileiras”, afirmou a presidente. “Manifesto o nosso repúdio diante da atitude do vereador e pedimos que haja mais respeito a todas as manifestações de religiosidade advindas dos povos tradicionais. Esta senhora quilombola é uma referência para toda a comunidade negra do Tocantins e sua imagem não deve ser achincalhada porque estamos em um processo eleitoral”, finaliza Roberta de Osoguiã.

 

Confira abaixo vídeo de Dona Juscelina, entristecida, comentando sobre a discriminação sofrida: